''Eu tenho meus motivos pra ser exatamente do jeito que eu sou, acredite.''

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Explicando política as crianças





No Brasil, são muitos os partidos que, no frigir dos ovos, se reduzem a dois: o das raposas e o das galinhas.


Imagino que as crianças devam ficar muito confusas com as notícias da política. Resolvi, então, preparar uma pequena cartilha que as ajudará a entender essa coisa misteriosa que é o centro da vida nacional e que, por vezes, quando convém aparece e quando não convém, desaparece...
1. Somos uma democracia. A democracia é o melhor sistema político. É o melhor porque nele, ao contrário das ditaduras, é o povo que toma as decisões;
2. Em Atenas, berço da democracia, era fácil consultar a vontade do povo. Os cidadãos se reuniam numa praça e tomavam as decisões pelo voto. Mas no Brasil são milhares de cidades, espalhadas por milhares de quilômetros e os cidadãos são milhões. Não podemos fazer uma democracia como a de Atenas. Esse problema foi resolvido de forma engenhosa: os cidadãos, milhões, escolhem por meio de voto uns poucos que irão representá-los. O Congresso é a nossa Atenas...;
3. Os representantes do povo, eleitos pelos votos dos cidadãos – vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, presidente-, são pessoas que abriram mão de seus interesses e passaram a cuidar dos interesses do povo;
4. É assim que dizem as teorias. Na prática, não é bem assim...;
5. No Brasil, são muitos os partidos que, no frigir dos ovos, se reduzem a dois: o partido das raposas e o partido das galinhas;
6. As raposas, devotas de São Francisco, sabem que é dando que se recebe. Assim, movidas por esse ideal espiritual, elas dão milho para as galinhas...;
7. As galinhas acreditam nas boas intenções das raposas e tomam esse gesto de dar milho como expressão de amizade. A abundância do milho as faz confiar nas raposas. E, como expressão da sua confiança nascida do milho, elas elegem as raposas como suas representantes. Assim, na democracia brasileira, as raposas representam as galinhas.
8. Eleitas por voto democrático, às raposas é dado o direito de fazer as leis que regerão a vida das galinhas e das raposas...;
9. As leis que regem o comportamento das raposas não são as mesmas das galinhas. Sendo representantes do povo, precisam de proteção especial. Essa proteção, tem o nome de “privilégios”, isto é, leis que se aplicam só a elas;
10. Privilégio é assim: raposa julga galinha. Mas galinha não julga raposa. Raposa julga raposa. Logo, raposa absolve raposa;
11. “Todos os cidadãos são livres e têm o direito de exercer a sua liberdade.” As galinhas são livres para serem vegetarianas e têm o direito de comer milho. As raposas são carnívoras e livres para comer galinhas.
12. A vontade das galinhas, ainda que de todas elas, não tem valia. Vontade de galinha solitária só serve para escolher suas representantes;
13. Permanece a sabedoria secular de Santo Agostinho, aqui em linguagem brasileira: “Tudo começa com uma quadrilha de tipos fora da lei, criminosos, ladrões, corruptos, doleiros, burladores do fisco, mafiosos, mentirosos, traficantes. Se essa quadrilha de criminosos se expande, aumenta em número, toma posse de lugares, de cargos, de ministérios, da presidência de empresas e fica poderosa ao ponto de dominar e intimidar os cidadãos – e estabelecendo suas leis sobre como repartir a corrupção -, ela deixa de ser chamada quadrilha e passa a ser chamada de Estado. Não por ter-se tornado justa, mas porque aos seus crimes se agregou a impunidade”.
14. Portanto, galinhas do Brasil! Acordai! Uni-vos contra as raposas!



Nota: O texto inteiro de "Explicando política às crianças" se encontra em http://www.rubemalves.com.br/.

Por Rubens Alves, educador, filósofo e escritor.

Fonte: Jornal "A Folha de S. Paulo" de 07/07/09

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Pequena sociologia do fungo




Luiz Felipe Pondé


Há um conforto canalha em remeter os anos nazistas a algum tipo de monstruosidade

Folha de SP 27/07/09

OS FILMES "O Leitor" e "Um Homem Bom" receberam críticas que circulam até hoje em jantares frequentados por pessoas éticas até os últimos fios dos cabelos. A acusação é que pecam por "humanizar o nazista". Há uma farsa moral nesse tipo de crítica, e pretendo desnudá-la hoje diante de seus olhos, caro leitor.Hannah Arendt recebeu críticas iguais quando escreveu sobre o julgamento do nazista Eichmann em Jerusalém. Foi acusada de "traidora da raça" -sendo judia- porque dizia que o carrasco nazista era banalmente humano: nascia seu essencial conceito de banalidade do Mal.Sua análise decorre do impacto que a burocracia tem sobre as pessoas, gerando uma espécie de zumbi moral. Carimbos, prazos de entrega, estatística, logística, defesa do próprio emprego calam o tato moral. A metáfora do Mal como fungo aí aparece: o Mal se espalha sobre o mundo, como um parasita que corrói a alma abandonada à inércia da burocracia carreirista, muda para o mal-estar moral.A frase "humanizar o nazista" me soa estranha, apesar de que sei que os hipócritas a consideram óbvia como uma manhã de sol. "Humanizar o nazista" me soa como "cachorrar o cachorro", "arvorizar a árvore", "baratizar a barata". Absurdo? Não, porque os nazistas e seus colaboradores silenciosos são tão humanos quanto você e eu. E não me venha dizer, entre dois goles de vinho, que não. Humano nunca foi sinônimo de retidão moral. Optamos racionalmente pelo Mal. "Racionalmente" aqui quer dizer "atos justificados do ponto de vista dos nossos interesses cotidianos" e "Mal" aqui significa "ser cruel com os indefesos". A (falsa) indignação com a afirmação da humanidade dos nazistas por parte dos hipócritas já anuncia a farsa moral: nego a justificação silenciosa (humana e banal) do ato cruel para defender minha imagem de "bom". E por quê? Porque não suporto que desnudem o fato de que eu, provavelmente, agiria da mesma forma naquela situação. Nosso hipócrita perde o sono com isso. Sente-se nu. E por quê? Façamos uma pequena sociologia desta farsa.Há um conforto canalha em remeter os anos nazistas a algum tipo de monstruosidade. Perceber a humanidade do nazista não é desculpá-lo ou justificá-lo moralmente, mas sim iluminar nosso parentesco com ele, é denunciar um cotidiano de pequenos interesses e medos que sufocam o mal-estar moral numa praga de fungos. É aí que reside a farsa moral: remeter o nazismo a uma monstruosidade é supor que foi algo "não humano" que o produziu. Essa suposição é a farsa moral: o monstro nele provaria que estamos a salvo. A verdade é que a maioria esmagadora agiria como todos os que colaboraram durante o terror fascista. Denunciaríamos judeus, gays, ciganos, comunistas, desgraçados de todos os tipos. E por alguma causa maior? Não, denunciaríamos apenas para garantir nosso cotidiano.Venha cá, caro leitor. Acompanhe-me neste exercício com o hipócrita. Você, hipócrita, perderia o emprego por um desconhecido? Abriria mão de melhorar sua situação social para defender uma mulher e suas duas filhas estranhas, que não tomam banho há dias? Perderia a chance de "garantir" o futuro do seu filho, incitando-o a combater o poder que pode lhe ser favorável? Escolheria essas estranhas, mesmo que sob dura crítica da mulher ou do homem que dorme com você e torna sua vida viável? Saberia responder ao seu filho a seguinte questão: "quem você ama mais? Eu ou essas estranhas?". Provavelmente você produziria o que Woody Allen, em seu maravilhoso "Crimes e Pecados", chama de "racionalizações": "Não tenho nada a ver com essa gente", "Atrapalham nossa vida mesmo", "Deve haver uma razão para serem tratados dessa forma" ou "Melhor cuidar dos meus filhos". Enfim, viraria de lado, trocaria o canal da TV, e dormiria seu sono profundo. Sessenta anos depois, fica fácil desfilarmos, entre taças de vinho, juras morais. Se situações semelhantes se repetirem (e não falo de grandes catástrofes políticas), faremos o mesmo em nossa família, em nosso trabalho, em nossas relações sociais próximas. Assédio moral, indiferença, oportunismo, medo, são todos faces desta banal maldade humana.No filme "Um Homem Bom", a bela esposa do homem bom, quando o vê pela primeira vez vestido com o seu uniforme da SS (coisa que ele detestava), não resiste, cai de joelhos e lhe faz um delicioso sexo oral. Eis nosso prêmio.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A sensatez de Herbert Vianna


Cirurgia de lipoaspiração.
por Herbert Vianna

Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal é muito menos "lipo-as e muito mais piração?"

Uma coisa é saúde outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu. Hoje, Deus é a auto imagem. Religião é dieta. Fé, só na estética. Ritual é malhação.

Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é bobagem.

Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer, não. Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação. Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.

A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?

A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem. Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa. Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa.

Não importa o outro, o coletivo. Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.

Ok, eu tambem quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar, correr, viver muito, ter uma aparência legal mas...

Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bilímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é, e não pode ser. Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude.

Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.

"Cuide bem do seu amor, seja ele quem for."
Herbert Vianna
Cantor e compositor
*Este texto chegou às minhas mãos através da minha querida amiga Mirian.



PS: Segundo comentário feito em 05/02/10 esse texto pertence a Rosana Hermman blogueira e jornalista.

domingo, 19 de julho de 2009

Nosso lugar dos sonhos...







Horizonte Perdido






Aproveitei a manhã fria de domingo para fazer uma sessão nostalgica, na sexta à caminho de Guaranésia vi uma placa indicando uma cidade ou vilarejo chamado “Shangri-lá”, me veio ao pensamento “a cidade dos sonhos” “utópica”, do filme Horizonte Perdido e me propus a assisti-lo novamente. A cópia que tenho é de 1937 ainda em preto e branco e como todas, faltando 24 minutos perdidos pela má conservação do original pelo próprio estúdio.



Depois de assistir ao filme cheguei a conclusão que o paraíso nos aparece de diversas formas, para alguns, mesmo sendo o lugar dos sonhos, será sentido pelos visitantes ou como a promessa de um mundo novo possível (no qual alguns escolhem morar), e para outros a ausência de “liberdade”, perde a perfeição, como um lugar assustador e opressivo (do qual outros resolvem fugir). Shangri-lá é descrito como um lugar paradisíaco situado nas montanhas do Himalaia, sede de panoramas maravilhosos e onde o tempo parece deter-se em ambiente de felicidade e saúde, com a convivência harmoniosa entre pessoas das mais diversas procedências.
Shangri-lá é a própria utopia realizada (se é que isso é possível).

O filme reflete toda a instabilidade política, militar, econômica e social — e o materialismo do momento: seja 1937 ou HOJE.

Sobre uma localidade utópica, um lugar mágico entre as belíssimas e inacessíveis montanhas congeladas do Tibet, onde pessoas de diversas nacionalidades diferentes vivem de forma livre e feliz, partindo do princípio do uso da moderação em todas as suas atividades e atitudes.
Será que a tendência está se agravando? Temos nós, a humanidade, consciência de como estamos vivendo e do que estamos preparando para os que nos seguirão?
Dizem que o filme envelheceu um pouco, principalmente em seu misticismo ingênuo demais. Mas será que ideias de tal porte envelhecem? Será que desejar a paz e a felicidade é algo ingênuo demais?
Shangri-lá seria um refúgio, um local que poucos privilegiados poderiam conhecer.
Mas estará o homem pronto para isso? Já que todos nós, mesmo que em apenas alguns determinados momentos da nossa vida, buscamos a tranquilidade e paz de um local como Shangri-lá.

Você permaneceria em Shangri-lá (o paraíso) onde não existem nenhum tipo de conflito ou voltaria para a dita “civilização”?


terça-feira, 14 de julho de 2009

A porca




Após 3 mortes (confirmadas) o governo ainda continua afirmando que não é necessário preocupação, mesmo sendo uma delas uma criança que estava fora dos padrões de risco que antes afirmavam (não saiu do país nem teve contato com pessoas que viajaram). Conversando algumas semanas atrás com professoras de minha unidade escolar sobre o risco dessa nova doença, umas afirmavam ser uma "doença de classe média" por isso o governo estava dividindo a reponsabilidade com os hospitais particulares (já que a maioria dos atendidos tinham convênio médico), nada mais justo. Mas e as pessoas que não são dessa classse abastada, mas que mantêm contato direto com eles, trabalham em aeroportos, são camareiras de hotéis, e uma infinidade de pessoas que prestam serviços diretos com passageiros que chegam dos "países de risco". Um sobrinho meu que é motorista de um diretor (não vem ao caso o nome da empresa) ficou com medo de servir ao patrão, pois o mesmo havia voltado da Argentina. O que fazer? Manter a saúde ou o emprego? Esperemos que nosso Ministro da Saúde (José Gomes Temporão) volte seus olhos para o interior do país e não somente manter vistoria nas fronteiras, mas principalmente no Estado de São Paulo onde o há o maior número de casos.
Tânia.
A porcaLUIZ FELIPE PONDÉ

Muitos dos que praticam a ciência gozam o poder e geram a paranoia



O CARO leitor já sabe que sou medieval. Por exemplo, gosto da medicina dos temperamentos. Isso não significa que não faça uso de antibióticos e vacinas e seja contra o lucro da indústria farmacêutica. Pelo contrário, julgo que, quando se trabalha bem, deve-se ganhar muito dinheiro, apesar de que suspeito que, quando você se humilha por dinheiro, ele te esnoba. Um certo desdém pelo dinheiro se faz tão necessário na boa educação quanto saber sentar de pernas fechadas constitui o caráter público das mulheres decentes.
Grande parte da história minúscula da humanidade se encontra entre as pernas das mulheres e o discreto desdém pelos valores do mundo. Vê, caro leitor? Tenho uma tendência incontrolável a pensar que a vida se dá, muitas vezes, entre secreções ordinárias e a impermeabilidade à banalidade do mundo.
Tenho cá minha própria leitura dos temperamentos. Como todo cidadão pós-moderno, respiro releituras de tudo, ao sabor do meu humor do dia. Serei hoje niilista ou não? Julgue o caro leitor.
Acho que o temperamento determina a aceitação e a produção das ideias (por isso, e por mais alguns outros vícios, sou acusado de irracionalista). Nesse sentido, penso que indivíduos apaixonados pela objetividade da ciência adoram o poder terrível que a objetividade tem sobre a frágil subjetividade, perdida em suas lembranças e seus desejos. Resumindo a ópera: esses indivíduos adoram exercer o poder sobre os outros, oferecendo como arma a força da estatística. Nesse caso, o medo da verdade estatística se assemelha à fobia de altura diante do peso da gravidade física.
Associa-se a este traço autoritário a natureza paranoica do conhecimento que Freud já suspeitara. As relações entre fatos, compondo uma cadeia de significado com o objetivo de prever outros fatos futuros, alimentam-se de hábitos paranoicos. A paranoia respira bem na atmosfera do poder, do medo e da ciência. Perguntará o leitor desconfiado: você é contra a ciência? Responde o colunista: claro que não. Seu método é excelente. Todavia, muitos dos que praticam a ciência o fazem gozando de poder e gerando paranoia.
E o pior é que, em muitos casos, gerar paranoia é parte necessária do objetivo. Exemplo banal desse caso é quando nos encontramos diante dos "medos epidemiológicos". Claro que o leitor, mesmo culto, não é obrigado a dominar o jargão da medicina preventiva. Gripes e pestes são objetos da epidemiologia. Eu mesmo só conheço o jargão porque passei anos nos bancos da faculdade de medicina, entre cadáveres, parasitas e tumores. Pensei em ser ginecologista, geneticista ou psiquiatra, mas, como sou preguiçoso, acabei filósofo. É bem verdade que o conhecimento médico nos faz sentir que o resto da humanidade permanece nas sombras ancestrais da ignorância. É gostoso saber que existem ignorantes que podemos assustar e ensinar.
Dito isso, o leitor já deve ter pensado na terrível gripe A (H1N1) "antigamente" chamada de "suína", mas que, em nome do direito dos porcos, teve seu "nome fantasia" substituído pela denominação científica. Evidentemente que além da dignidade ameaçada dos porcos e de seus criadores, seu "antigo" nome poderia nos levar a pensar (equivocadamente) que podemos contrair o maldito e assassino vírus (depois da possível mutação cantada em prosa e verso) apenas se comêssemos ou beijássemos os porcos. Seu nome científico declara mais universalmente que, mesmo comendo outros animais e beijando outras espécies, podemos pegar o vírus.
Assim como a "espanhola" nos matou em grande estilo em 1918, a "porca" poderá nos ceifar.
Infelizmente a relação entre consciência epidemiológica e paranoia pública é íntima, mesmo porque obsessão e higiene são, em se tratando de vírus, irmãs gêmeas. Talvez venhamos a descobrir que estatisticamente os portadores ou praticantes da neurose obsessiva ou transtorno obsessivo-compulsivo, TOC para os íntimos, sobrevivem melhor em tempos de consciência epidemiológica aguda. Queria tanto ter TOC nesta hora... (terão já inventado um nome novo para esse quadro clínico? Se sim, perdoem-me pelo anacronismo).
Contra a paranoia costuma funcionar o senso do ridículo. Assim, sejamos limpinhos e obedientes, mas não esqueçamos que o paranoico é ridículo no seu gozo em causar medo. Respiremos com moderação.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Notícias Populares- Pleonasmo




Continua atualíssima, a melhor frase do vídeo é quando o sequestrador em suas exigências pede para ser julgado pela COMISSÃO DE ÉTICA DO SENADO.





quarta-feira, 1 de julho de 2009

Marlon Brando



Cinco anos sem o carisma de Brando
By Luiz Carlos Merten (O Estado de SP)


Completam-se hoje cinco anos da morte de Marlon Brando. Ator carismático, mito, ícone. Brando irrompeu no cinema de Hollywood após a 2ª. Guerra, quando havia carência de novas faces para representar mudanças de comportamentos que sacudiam os EUA. Logo em seguida surgiram o rock, Elvis Presley, James Dean, mas só nos anos 60 o sonho americano seria contestado para valer. Brando introduziu um gostinho de rebeldia.
Foi assim que apareceu naquela T-shirt que realçava sua virilidade em Uma Rua Chamada Pecado, que Elia Kazan adaptou da peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams. Três anos mais tarde, Brando montou no lombo de uma motocicleta em O Selvagem, de Laslo Benedek, de 1954, e antecipou de 15 anos o mal-estar existencial da geração Sem Destino.

sábado, 27 de junho de 2009

O menino de pijama listrado






Bruno, de oito anos de idade, é o filho protegido de um oficial nazista cuja promoção leva toda família a deixar sua confortável casa em Berlim para seguir para uma área desolada onde o menino solitário não tem o que fazer e nem com quem brincar. Muito entediado e movido pela curiosidade, Bruno ignora as insistentes recomendações da mãe de não explorar o jardim dos fundos e segue para a fazenda que ele viu a certa distância. Lá ele encontra Shmuel, um menino da sua idade que vive uma existência paralela e diferente do outro lado da cerca de arame farpado. O encontro de Bruno com o menino do pijama listrado o leva da inocência a uma profunda reflexão sobre o mundo adulto ao seu redor conforme seus encontros com Shmuel se transformam em uma amizade com conseqüências devastadoras.
O filme não tem a pretensão de mostrar fielmente as marcas do holocausto, mas apenas criar uma fábula sobre nossas ações e suas consequencias. A sutileza do diretor ao apresentar os horrores do holocausto, ele deixa apenas sub-entendido nas entrelinhas dos diálogos.
Durante a Segunda Guerra Mundial, uma família alemã se muda de Berlim para Auschwitz, quando o patriarca é ordenado a trabalhar em um campo de concentração. Assim, Bruno, um garoto de 8 anos e filho do oficial, começa uma linda amizade com um menino judeu da mesma idade. O filme mostra o modo como o preconceito, o ódio e a violência afetam pessoas inocentes, especialmente as crianças.

O Menino do Pijama Listrado
Gênero: Drama

Direção Mark Herman
By Angélica Bito
As mais diferentes visões do trágico período do nazismo, que deixou uma cicatriz indelével na história contemporânea, já ganharam espaço em inúmeros filmes. O Menino do Pijama Listrado tem na manga o trunfo de explorar de maneira única a forma como um menino de oito anos enxerga o envolvimento de sua família no regime nazista. O diferencial acaba fazendo com que ele se destaque dentre outros dramas com temática semelhante.

Baseado no livro homônimo do irlandês John Boyne, O Menino do Pijama Listrado acompanha a história de Bruno. Aos oito anos, ele parece ser um pouco mimado e alienado demais. Em meio à Segunda Guerra Mundial, em Berlim – onde o nazismo encontra seu terreno mais fértil -, o menino acompanha de longe as atividades do pai, um destacado militar do exército de Hitler. Sua mãe acompanha com pouco entusiasmo as atividades do marido, diferentemente da irmã do menino, Gretel.

Quando a família é obrigada a se mudar para uma cidade no interior da Alemanha por conta das responsabilidades do pai junto ao regime nazista, Bruno se vê sozinho em meio a um ambiente inóspito. Sem freqüentar a escola, sente falta dos amigos e de pessoas de sua idade com quem possa brincar. Normal. Com sua natural curiosidade infantil, vê da janela de seu quarto algo que parece ser uma fazenda, onde os fazendeiros usam pijamas listrados. Ou seja: um campo de concentração, o qual o menino é incapaz de identificar, mesmo com tamanha proximidade com o regime nazista. Bruno demora a descobrir as atrocidades que ocorrem lá e, com sua ingenuidade extrema (muitas vezes irritante), explora os arredores e acaba ficando amigo de Shmuel, menino judeu preso no campo. A amizade se desenvolve tendo como separação a cerca que separa esses mundos tão distintos na aparência, mas tão semelhantes em sua essência. Mas o que faz toda a diferença é a visão infantil do protagonista em relação a essa situação tão revoltante e trágica.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Antígona



ANTÍGONA

By Luiz Felipe Pondé
Folha de São Paulo 22/06/09



“Quando nasci, minha mãe deu à luz gêmeos: eu e meu irmão, o medo”. Hobbes teria dito isso. Sofro desse sentimento. Tenho muitos medos. Um deles é bem moderno: o medo de não ter preconceitos corretos. Quais seriam estes?

Ora, repito o óbvio: contra o cristianismo, contra brancos heterossexuais, contra os EUA.

Assim como normalmente a “perua” é a mulher de saia curta que não é nossa amiga, “reacionários” são os que ousam discordar das nossas tiranias de estimação.

Às vezes me pergunto: afinal de contas, por que supor que se você for negro você será essencialmente mais justo? Ou se você for homossexual, você será essencialmente mais democrático? Por que travestis ou transexuais merecem ter silicone e cirurgias “de graça”, enquanto diabéticos e pacientes renais morrem em filas?

Perguntas que não devem ser feitas à mesa de “pessoas de bem” no teatro ridículo da democracia contemporânea. Um bom exemplo é o culto ao “jovem”. Por que supor que movimentos de jovens são sempre “coisas do bem”?

O “jovem” não é propriamente uma invenção do século XX. Quando pensarmos em “jovens”, temos em mente os jovens protestando nas ruas nos anos 60: hippies contra a guerra do Vietnã nos EUA, parisienses armando “barricadas do desejo” em maio de 68. Tanto num caso como no outro, ao final, todos voltaram para casa, pedindo mesada ou procurando emprego. E por quê? Porque deixaram de ter 18 anos, tiveram filhos e conta a pagar. Mas esta não é toda a história, há mais do que isso, e esta história começa bem antes desses “espetáculos”, que nos legaram calças jeans e sexo livre, supostamente de maior qualidade.

O que é esse “jovem”? Figura originariamente romântica (século XIX), o “jovem” nasce da idéia falsa de que exista um “gênio” específico no jovem (pessoas de mais ou menos 15 a 25 anos) que o diferencie moralmente e politicamente do resto da humanidade. Não acho que pessoas de 15 a 25 anos tenham nenhuma reserva moral ou política: são capazes de agir de má fé como todo mundo.

Seu comportamento não guarda nenhuma evidência de boa qualidade em si, podem cometer atos de opressão e manipulação como qualquer outra pessoa.

Não acredito no “jovem”. A forma mais certa de trairmos os mais jovens é deixá-los crer no “jovem”. Outra forma é tomar suas idéias e movimentos políticos e sociais como sinônimos evidentes “de um mundo melhor”. Seja como for, estes movimentos não são necessariamente defensores da liberdade.

Exemplos banais de como movimentos estudantis oprimem seus colegas e manipulam opiniões e esmagam diferenças enchem as páginas da paisagem histórica.

Ainda no século XIX, o escritor russo Turguêniev, em seu livro “Pais e Filhos”, imortalizou a imagem do jovem arrogante e cruel em seu estudante Bazarov, exemplo do jovem niilista russo, capaz de destruir tudo em nome de seu autoritarismo libertário e científico – ainda que Bazarov, ao final, tenha o destino comum de muitos homens, o de ser derrotado pelo amor não correspondido de uma mulher.

Sabemos que movimentos estudantis aderiram aos fascismos modernos, perseguindo colegas e professores nas universidades européias em nome da “nova saúde política”. Assim sendo, pergunto: por que devemos aceitar que exista uma “razão da idade” que faz alguém mais confiável só porque nasceu em 1990? A culpa, na maioria das vezes, é de seus professores (quando não dos pais que aderem a desculpas”da ciência da psicologia” para sua preguiça), muitas vezes pessoas amargas, orgulhosas e um tanto decadentes, que de dentro da sala de aula recriam um mundo à luz de suas pequenas manias teóricas.

Alguns dizem por aí que devemos “reformar a educação”; eu acho que a educação não funciona mesmo, por isso que a moda da “nova educação”, sempre pega. Às vezes, milagres (Gotas de consciência) ocorrem a partir da leitura de um livro ou da fala de um colega ou de uma professora, e normalmente estes milagres revisitam eternos dramas, por exemplo, o de Caim e Abel (a velha inveja) ou o de Antígona e Creonte (devemos ouvir a voz da consciência ou sucumbir ao medo da lei da polis?).

Sei que posso ser acusado de anti-intelectualista. Que assim o seja.

Prefiro me ver como aquilo que se chamava de “um homem de letras”, pequeno herdeiro de uma grande tradição que reúne a Bíblia e os gregos como seus ancestrais, que tudo deve a eles, e que pouco ou nada sabe além deles.


sexta-feira, 19 de junho de 2009

Gran Torino by Heitor Augusto (crítico de cinema)




Quando as primeiras informações sobre Gran Torino começaram a surgir nos Estados Unidos, pairou no ar uma sensação de que o 31º longa de Clint Eastwood como diretor estaria próximo demais de Dirty Harry, filme de 1971 no qual ele interpreta Harry Callahan, um detetive durão, sem limites. O personagem, espécie de predecessor de Cobra, Rambo e Chuck Norris, marcou a carreira de Eastwood como ator. Felizmente, Gran Torino está distante das inconsistências de Harry Callahan e apresenta um personagem que combina um ar rabugento e egoísta, obrigado a lidar com suas sombras do passado, a recente morte da mulher e os orientais que invadiram o bairro em que ele mora. Esse homem é Walter Kowalski (Eastwood), um dos melhores personagens da história do cinema. Kowalski é a síntese da decadência. Ao voltar da Guerra da Coréia (1950-53), onde serviu como combatente, passa a trabalhar na indústria automotiva. A mesma indústria, baseada em Detroit, que foi a primeira a ser afetada quando os EUA entraram em crise meio século depois. Daquela época, resta uma lembrança: seu carrão Gran Torino 1972, intacto, guardado a sete chaves na garagem. O velho rabugento vive uma existência medíocre e solitária, descarregando sua falta de humor sobre seus vizinhos, descendentes de Hmong, etnia que habita diversas regiões do sudeste asiático. Óbvio que, para Kowalski, Hmong, coreanos, japoneses são todos iguais. Um incidente inesperado o obriga a defender os vizinhos ao lado, cujo único homem da família, o adolescente Thao (Bee Vang), é assediado para entrar em uma gangue. O acontecimento muda sua relação com o mundo. Com sutileza, o diretor encontra espaço para ironizar os heróis do cinema capazes de salvar países à bala. Em um período histórico em que pessoas procuram heróis, Eastwood nega isso a seu personagem. Ele não salva os Hmong porque tem bom coração, mas apenas porque a gangue violou uma regra sagrada: ninguém pisa em seu jardim. Mas existem coisas que são maiores do que imaginamos ou do que nós mesmos. A família ao lado de Kowalski não tem proteção alguma contra o assédio continuo da gangue. Querendo ou não, o velho está ali pertinho e tem de fazer algo em relação a isso. Ele inicia uma jornada de transformação que Eastwood não faz questão alguma de esconder do espectador. Mas, com maestria, o diretor ainda mantém um ponto de interrogação sobre o tamanho da transformação de seu protagonista e o final reservado a ele. Tudo isso em pequenas doses de ironia, com um texto repleto de expressões, digamos, mal-educadas. Gran Torino é um filme com diversas portas de entrada para o espectador. Uma delas é a aproximação de Walter Kowalski, um conservador que enxerga três necessidades na vida de um homem: ter um carro, casar e trabalhar. Ironicamente, três esteios da sociedade norte-americana: consumo, família e trabalho. Eastwood, em diálogos que beiram o bizarro, ironiza isso. Por muitos anos, Eastwood ficou conhecido por uma frase célebre de seu personagem em Dirty Harry: “Vá em frente, faça o meu dia”, algo como “mova-se e eu explodo sua cabeça”. Em Gran Torino ele traz outro bordão marcante: “get off my lawn”” que, em livre tradução minimamente justa com o teor original, seria como “vaza do meu jardim!”. Mas, diferente de 38 anos atrás, Eastwood abandona o herói sem contradições e nos presenteia com um anti-herói que é a pura contradição.