''Eu tenho meus motivos pra ser exatamente do jeito que eu sou, acredite.''

domingo, 3 de abril de 2011

Afastamento do blog... e reaprendendo a ser mãe...

      Olá leitores deste blog, ficarei um tempo afastada daqui por exatos 3 meses, pois estou envolvida num novo projeto que absorve praticamente todas minhas poucas horas livres. Terei que deixar de lado por um tempo meus livros e filmes prediletos para "respirar" Délia Lener, César Coll, Vigotsky, Paulo Freire, Andy Hargreaves, Perrenout e mais alguns pensadores e pedagogos que farão parte do meu "ser". Como diz meu amigo Marcelo, terei que "pensar" como eles, esquecer meus pré-conceitos, meu modo de lecionar e praticamente (se fosse possivel) reencarnar Paulo Freire e os outros citados que ainda estão vivos...rs 


          Para uma despedida da boa vida, hoje tirei parte do dia para sair com meus filhos, me parece que estou reparando essa lacuna da minha missão de ser mãe...
     Quando eles eram pequenos não saíamos, não passeavamos, meu ex marido não era muito dado a passeios e o máximo que fazíamos era visitar familiares.... Fomos algumas vezes no Parque da Mônica somente, zoológico, simba safári, playcenters, não faziam parte de nosso roteiro. Como sempre trabalhei muito, quando bebês perdi muita coisa preciosa, minha mãe que teve esse privilégio da primeira palavra, primeiro passo, etc... Agora tento resgatar esse "tempo" que foi perdido, claro que não é totalmente possível, mas os preencho de atenção, carinho e qualidade de vida.



     Quando passei a morar sozinha com eles fui modificando nossa rotina, passamos a frequentar museus (muitas vezes contra a vontade deles...) teatros, musicais...
     

     Hoje fomos ao Museu da Independência, uma vergonha (confesso) por ser uma prof. de História nunca ter ido ao museu. Depois de errar algumas vezes o caminho (peguei a Av. do Estado na direção oposta....rs) acertamos... Lá era tudo o que eu imaginava, aquele jardim maravilhoso imitando Versalhes, e o museu com peças maravilhosas, vi até um "carro de bombeiro" de séculos atrás movido à tração animal..rs
   
     Eles adoraram o passeio, na volta almoçamos num restaurante que há muito tempo queria levá-los e mesmo sendo um domingo chuvoso foi muito divertido. 
     Tenho mais algumas falhas a reparar, talvez nem sejam falhas. Sou uma mãe que sempre impôs limites e disse muitos "nãos" a eles, essa semana me pus a pensar nisso, normalmente não sei dizer não a ninguém, às vezes faço coisas contra minha vontade somente para não contrariar o outro. Mas um acontecimento nesse final de semana me fez mudar de paradigma, agora me coloco em primeiro lugar, se o outro não ficar satisfeito... "azar o dele", como diz o ditado, antes ele do que eu, (pensamento egoísta), mas eu já estou acostumada a ouvir tantos "nãos"... que não doeu nada em dizê-lo... na verdade foi bom.
     Depois desse compartilhamento de imagens e de ideias, me despeço e prometo voltar renovada e eventualmente quando sobrar um tempinho venho ver se tem algum comentário nos posts.
     Um beijo a todos. Hasta Luego!!

sábado, 26 de março de 2011

Dias de fúria.....





TPM (Tensão Para Matar), o inferno da mulher moderna... já li alguns artigos em que a mulher é até inocentada em caso de crime (dependendo da benevolência do juiz), pois pode alegar que estava “fora de si”...
Essa semana foi muito difícil, hoje parei pra pensar ... Que descontrole!!! Falei coisas que não devia e que normalmente não digo, depois fiquei com crise de consciência por ter dito. Dei broncas nos alunos, uma resposta mal educada deles (o que é habitual) que normalmente relevo, já bastava para que eu colocasse o indivíduo para fora da classe.
Que estranho hormônio é esse que tem o poder de “transformar Jekyll em Hyde”? 

Coisas que normalmente passam despercebidas, agora tomam grandes proporções, uma marolinha se transforma em um tsunami.
Ronnie Von tem uma ótima solução: Diz que na entrada de  seu closet tem uma bonequinha onde tem duas faces. Se sua esposa Kika  está com TPM vira o rostinho para furioso, então ele sabe que são os dias em que é melhor se manter distante ou tomar cuidado com o que diz ou faz...


Há vários tipos de TPM, xeretando na net vi num site que meu tipo é o bruxa (novidade....rs)
bruxa
Alterações bruscas de humor, ansiedade, nervosismo, irritabilidade,lentidão mental, abatimento, apatia, insônia, vertigem
e depressão, dor de cabeça forte; os sintomas apontam alto nível de
estrogênio e baixa progesterona... ufa.... depois de tudo isso junto.... como me agüentaram???? Rssss


Os homens não tem ideia do que passamos ou sentimos e por isso tem a obrigação de nos perdoar.... rs
Por isso venho aqui me redimir.... com meus filhos, amigos, e “alguns” alunos... rs
Tentando sair dessa TPM sem traumas... (um ótimo nome pra um livro de auto-ajuda) ontem passei por uma situação que fiquei rindo sozinha....  Meu celular tocou e era número privado... o homem (com um voz linda), perguntou quem falava, eu... (com TPM claro...) respondi... quer falar com quem???? Ele responde... aqui é Renato e esse número estava aqui como ligação perdida. Que eu logo retruquei que nem havia utilizado o celular naquele dia...
Depois que o Renato da linda voz desligou me ocorreu... que oportunidade de ouro perdi.... não poderia ter respondido assim....
Olha... infelizmente não fui eu... mas se me der seu número posso ligar... E caí na gargalhada sozinha, pois quem me conhece sabe que não tenho essa coragem toda....rsssss
Obrigada Renato (seja lá quem for)... você me fez rir apesar da TPM...
 Hoje é sábado, dia ensolarado e maravilhoso, acabei de voltar do Bosque Maia onde fui fazer minha caminhada e agora vou numa cafeteria tomar café com uma amiga... Tudo passou... ufa... e vislumbro um final de semana maravilhoso!!!
Beijos a todos!!!!

Gostei da Declaração dos Direitos da Mulher com TPM, inclusive de alguns artigos..:

Tirado do blog:http://crondia.blogspot.com/2011/03/declaracao-universal-dos-diretos-da.html
Preâmbulo

Considerando as alterações hormonais que afetam as mulheres durante os dias que precedem o período menstrual, e seus consequentes transtornos psicológicos e sentimentais, fica estabelecido que:




ARTIGO II

Toda mulher em dias de TPM tem direito à preferência no trânsito; a encontrar todos os sinais abertos; a receber passagem dos outros motoristas; a encontrar vagas sem que haja necessidade de baliza; e a não ouvir nenhuma buzina — salvo em casos de buzina utilizada como ferramenta de paquera.




ARTIGO VIII

Toda mulher em dias de TPM tem direito a estourar o limite do cartão de crédito comprando sapatos que não fazem seu estilo, roupas que só usaria se fosse convidada para uma festa brega, bolsas que custam uma fortuna, embora não acomodem nem um celular. E que nada disso conste na fatura do mês seguinte.




ARTIGO IX

Toda mulher em dias de TPM tem direito a reclamar com o namorado de qualquer coisa da qual já tenha reclamado um milhão de vezes; a chorar por causa dele; a chorar no telefone com ele; a não atender as ligações dele; e até a terminar com ele. Desde que, passado o período, ele finja que nada disso aconteceu.
ARTIGO VI

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de se abster da obrigação de dizer "bom dia", "bom tarde", "boa noite", “por favor”, “com licença”, sem ser taxada de grosseira e mal-educada.

ARTIGO VII

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de esquecer: esquecer o aniversário de um parente, esquecer de pagar uma conta, esquecer de ir ao dentista, esquecer de enviar um orçamento, e outras coisas que agora esqueci (estou no meu direito).




ARTIGO X

Toda mulher em dias de TPM tem o direito de fazer com a sua TPM o que bem entender: um dramalhão mexicano, uma tragédia grega, uma comédia pastelão, uma crônica, que seja. Desde que isso lhe renda elogios, para que não fique traumatizada e inibida de escrever para todo o sempre.

Fonte: Crônica do Dia: DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS DA MULHER COM TPM >> Fernanda Pinho

quarta-feira, 23 de março de 2011

O delicioso perfume de Emma Bovary




O delicioso perfume de Emma Bovary

A culpa é mais um dos sentimentos difusos que vão do fígado ao coração, escurecendo nossa visão





 

   DE FATO, uma tragédia no Japão! Mas o povo japonês é um grande povo, estoico, maravilhoso, e vai dar uma lição ao mundo, mais uma vez, de como enfrentar a dureza da vida sem frescuras. Confio nos samurais contra esta bela besta-fera que é a natureza.
Claro que o bloco dos 2012 maníacos pelo fim do mundo vai dizer que a "mãe Terra" (que está mais pra Medeia do que pra Gaia) está nos mandando um recado, mas isso é bobagem, a natureza é cega. Não faço parte dos fanáticos "believers da religião verde". Sou um herege. Os "nature lovers" sabem que câncer é natural?
Sou mais dado a assuntos "menores", do tipo que enche o consultório dos analistas e nossas camas sujas.
"O que você acha da culpa e da traição?", me perguntou, outro dia, uma jornalista, um tanto ansiosa. Senti o delicioso perfume de Emma Bovary no ar.
Sei que pode haver culpa, mas o que me espanta mais é a ideia contemporânea de que haja uma "redenção pelo sexo".
Antes de tudo, não entendo a culpa como uma "ideia da consciência moral". Acho que quando a filosofia pensa a culpa como uma "ideia da consciência moral", ela faz má filosofia.
A culpa é mais um sentimento difuso que vai do fígado ao coração, assombrando o cérebro, escurecendo a visão, um zumbido nos ouvidos, que faz do mundo opaco. Uma ameaça que inunda o sangue.
Como uma náusea que não se sabe de qual órgão do corpo vem, nem para qual faculdade da alma se dirige. Um afeto incômodo, mas que faz você sentir que ainda tem corpo e alma, como numa intoxicação que paralisa o cotidiano.
Por isso usamos expressões como "ressaca moral". A culpa inunda o sangue, contaminando-o como faz o vinho, deixando um gosto de borracha na boca e a língua azeda.
Um erro comum é a fantasia de que uma vida sexual "louca" cura a alma de sua insatisfação cotidiana. Não, uma vida sexual "louca" é marca de uma alma louca de desejo. Nada mais. Como qualquer tara, é repetitiva, monótona, banal. Um vício, como o jogo, a cocaína, o álcool. Uma loucura humana demasiado humana, mas não sinal de uma nova atitude libertadora.
Só pessoas que vivem sonhando, pensando na maravilha que seria ser uma Emma Bovary, sem nunca ter pecado, sem nunca sentir o gosto de uma cama suja na boca, imagina que haja redenção no desejo sexual "emancipado".
Não digo isso pra negar o valor de se realizar desejos. Longe de mim a crença na armadilha do velho puritanismo. Deixo o puritanismo para as militantes da "pureza da natureza feminina" e para esses maníacos pela alimentação "sem sangue".
Digo isso para refutar a ideia infantil de que haja redenção no sexo ou em qualquer outra forma do desejo humano.
O ciclo do desejo é um círculo infinito cuja esfera está em toda parte e o centro em parte alguma. Este movimento descreve o sem-fim do inferno humano.
O desejo é sempre triste. Apenas quem não o conhece o julga redentor. A revolução sexual é puro marketing de comportamento. Venda de "estilos e produtos de prazer". Sua verborragia é indício de sua nulidade. Nossos avós faziam sexo melhor do que nós e nossos filhos que se gabam de beijar dezenas numa noite. O pecado é que dá tesão e não a liberdade sexual.
Uma das marcas do ridículo de nossa época é levar os jovens a sério demais. Atitude típica de covarde que foge da responsabilidade de dizer aos mais jovens que não há solução para vida e que tudo o que eles pensam já foi pensado antes deles e melhor.
A vida nasce, é bela, floresce, adoece e morre, sendo esquecida em meio aos vermes. E fazemos o que podemos em meio a isso.
Espanta-me como tanta gente grita dizendo que não vai ter água e comida pra todo mundo. Acho que o que vai acabar antes é a libido diante de tamanha masturbação sobre como ela salva a vida da sensação de nulidade cotidiana. Não vai sobrar libido para todo mundo, já que todo mundo deve ser um campeão do sexo.
Não existe sexo de graça (livre). A forma mais barata ainda é pagar com dinheiro ou um jantar. Daí o sucesso eterno da prostituição, porque sua nudez é ainda a mais em conta. Ou se paga com dinheiro ou com a alma.



segunda-feira, 21 de março de 2011

Complemento do post anterior........

Professor "novato" desiste de aulas na rede estadual de SP

DE SÃO PAULO
Hoje na Folha Professores recém-concursados desistem de ensinar na rede estadual de São Paulo. Entre as principais reclamações estão falta de condições de trabalho (salas lotadas, por exemplo), desinteresse de alunos e baixos salários, informa a reportagem de Fábio Takahashi publicada na edição desta segunda-feira da Folha (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL).
Edson Rodrigues da Silva, 31, formado na USP, foi aprovado ano passado no concurso público da rede estadual para ensinar matemática. Passou quatro meses no curso preparatório obrigatório do Estado para começar a lecionar neste ano no ABC paulista. Ao final do primeiro dia de aula, desistiu.
"Vi que não teria condições de ensinar. Só uma aluna prestou atenção, vários falavam ao celular. E tive de ajudar uma professora a trocar dois pneus do carro, furados pelos estudantes. Se continuasse, iria entrar em depressão. Não vale passar por isso para ganhar R$ 1.000 por 20 horas na semana."
Até a última sexta-feira (18), 60 professores já haviam finalizado o processo de exoneração, a pedido, média de mais de dois por dia letivo.
A gestão Geraldo Alckmin (PSDB) diz ser normal o número de desistências, considerando a quantidade de efetivações (9.30). No entanto, os educadores discordam.
Para a coordenadora do curso de pedagogia da Unicamp, Maria Marcia Malavasi, "o cenário é triste; especialmente na periferia, os professores encontraram escolas sem estrutura, profissionais mal pagos, amedrontados e desrespeitados."

Editoria de arte/Folhapress

domingo, 20 de março de 2011

Reprovar garante aprendizado?

     Este foi o título de um dos editoriais da Folha de SP desta semana, remoí a semana toda esse assunto e hoje resolvi "colocar pra fora" minha "amarga opinião".
     O texto foi escrito por Antonio Jacinto Matias vice-presidente da Fundação Itaú Social e membro do Conselho de governança do movimento Todos pela Educação... depois de tantos títulos eu uma mera professora tenho até medo de me pronunciar....rs mas vamos lá....
     (...)Chamado criticamente de "aprovação automática" e apontado como vilão de diferentes setores da sociedade brasileira, como ocorreu no recente período eleitoral, o sistema em si tem sido muitas vezes responsabilizado equivocadamente pelo baixo nível de aproveitamento dos alunos.(...)
     Este é o primeiro trecho que discordo.... como "equivocadamente"?... O senhor Antonio detrás de sua rica escrivaninha em seu escritório da Avenida Paulista está bem longe da realidade, ele deve somente ver os relatórios maquiados que chegam até ele... o convidaria juntamente com o secretário da educação sr. Herman para visitar a minha sala de aula onde tenho 3 alunas no 6o. ano que não são alfabetizadas... isso sem falar na minha classe de 4a. série em que o nível não atinge de uma segunda série de uns 10 anos atrás... 
     Onde está o "equivoco" senhor Antonio? Nos professores mal remunerados? Ou nas classes superlotadas? Ou no tempo que perco preenchendo papéis meramente burocráticos, tempo que para mim seria melhor aproveitado com meus alunos.
     Quando vocês que ficam atrás dessas mesas irão chegar à conclusão de que a educação é a essência do país? Que através dela se alcançará o tão esperado desenvolvimento...
     Se a educação continuar a ser tratada com esse descaso, não adianta ficar fazendo propaganda na mídia dizendo que o professor é essencial, provem isso, nos dê de volta a autoridade roubada, hoje o professor é um mero transmissor de conhecimento (isso se o aluno quiser receber) e no final do ano ele é promovido sim!!! Sem os requisitos mínimos para seguir em frente. 
     Sr. Antonio continue se enganando com os relatórios em que dizem que a educação no Estado de São Paulo está em ascensão... ou melhor... matrícule seus filhos ou netos em uma de nossas ótimas escolas.... Boa sorte!!!
    

sábado, 12 de março de 2011

Deus me livre de ser feliz

LUIZ FELIPE PONDÉ
Deus me livre de ser feliz

Quanto aos meus alunos e aos meus leitores, esses eu nunca penso em deixar felizes, graças a Deus

DEUS ME livre de ser feliz. Existem coisas mais sérias que a felicidade. Algum sabichão por aí vai dizer, sentindo-se inteligentinho: "Existem várias formas de felicidade!". E o colunista dirá: "Sou filósofo, cara. Conheço esse blá-blá-blá de que existem vários tipos de felicidade, mas hoje não estou a fim".
Um bom teste para saber se o que você está aprendendo vale a pena é ver se o conteúdo em questão visa te deixar feliz.
Se for o caso e você tiver uns 40 anos de idade, você corre o risco de sair do "curso" engatinhando como um bebê fora do prazo de validade. A mania da felicidade nos deixa retardados.
Querer ser feliz é uma praga. Quando queremos ser felizes sempre ficamos com cara de bobo. Preste atenção da próxima vez que vir alguém querendo ser feliz.
Mas hoje em dia todo mundo quer deixar todo mundo feliz porque agradar é, agora, um conceito "científico". Quem não agrada, não vende, assim como maçãs caem da árvore devido à lei de Newton.
Mas eu, talvez por causa de algum trauma (fiz análise por 20 anos e acho que Freud acertou em tudo o que disse), não quero agradar ninguém.
Não considero isso uma "vantagem moral", mas uma espécie de vício. Claro, por isso tenho poucos amigos. Mas, como dizem por aí, se você tiver muitos amigos, ou você é superficial, ou eles são, ou os dois.
Quanto aos meus alunos e leitores, esses eu nunca penso em deixar felizes, graças a Deus.
Desejo para eles uma vida atribulada, conflitos infernais com as famílias, dúvidas terríveis quanto a se vale a pena ou não ter filhos e casar.
Desejo que, caso optem por não ter família, experimentem a mais dura solidão da existência humana, porque, no fundo, não passam de egoístas. Mas se tiverem família, desejo que percebam como os filhos cada vez mais são egoístas porque querem ser felizes e livres.
Desejo para eles pressões violentas no mercado de trabalho. E jantares à meia-noite diante de um trabalho que não pode ficar para amanhã porque querem viajar e ter grana para gastar.
Quem quiser ser livre, que aguente a insegurança da liberdade. Quem for covarde e optar por uma vida miseravelmente cotidiana que veja um dia sua filha jogar na sua cara que você foi um covarde.
Especialmente, desejo um futuro cruel para quem acredita que "ser uma pessoa de bem" a protege de ser infiel, infeliz, abandonada e invejosa.
Espero que um dia descubram que, sim, eles têm um preço (apenas desejo que seja um preço alto) e que se vendam.
Espero que percebam que seus pais não foram santos e parem com essa coisa de gente brega de classe média que tenta inventar uma "tradição ética familiar" que só engana bobo.
E por que digo isso? Porque hoje todos nós estamos um tanto infantilizados e só queremos que nos digam o que achamos legal.
O resultado é uma massa de obviedades. A tendência é transformar o pensamento público em autoajuda ou em "compromisso com um mundo melhor", o que é a mesma coisa.
Quem quer agradar é, no fundo, um frouxo. Vejamos alguns exemplos do produto "querer ser feliz". Comecemos por quem acha que o seu "querer ser feliz" é superior e espiritualizado.
Talvez você queira virar luz quando morrer porque ser luz é legal (risadas). Deus me livre de querer virar luz quando morrer. Prefiro as trevas.
Se for para continuar vivendo depois de morto, prefiro viver no "meu elemento", as trevas, porque sou cego como um morcego.
Normalmente, quem quer virar luz quando morrer é gente feia ou magra demais. Mulheres bonitas vão para o inferno, logo...
E gente que acha que frango tem mãe (só porque ele "descende" do ovo de uma galinha, e ela de outro...) e por isso é crime matá-los? Trata-se de uma nova forma de compromisso com a "felicidade social e política".
Entre esses "felizes que desejam a felicidade para os frangos" existem pessoas de 40 anos com cérebro de dez e pessoas de dez anos que um dia terão 40, mas com o mesmo cérebro de dez. Não creio que mudem.
Hoje é Carnaval. Espero que você não tenha pegado aquele trânsito idiota de cinco horas para ser feliz na praia.

ponde.folha@uol.com.br

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

"Femmes aux hommes"

LUIZ FELIPE PONDÉ
"Femmes aux hommes"

Mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos"


MUITAS LEITORAS se queixam de que nunca falo sobre os males masculinos. Hoje, vou pagar uma parte desta dívida. Como todo homem que gosta de mulher, sou um escravo do desejo de deixá-las felizes. Que inferno...
Recentemente, numa entrevista, uma jornalista me perguntou se acredito que os homens tenham medo de mulheres inteligentes. E também o que seria mais importante numa mulher, beleza ou inteligência.
Antes de tudo, um reparo. Neste assunto, não consulte as feministas porque elas não entendem nada de mulher. Tampouco pergunte aos homens que chamam as mulheres de "vítimas sociais", porque são frouxos. Pobres diabos: mulher não gosta de covarde, mesmo que seja covarde em nome dos "direitos femininos".
A segunda pergunta (o que é mais importante numa mulher, a inteligência ou a beleza?) é fácil: a beleza vem em primeiro lugar, nunca a inteligência. Quando um homem disser pra você que ele prefere mulheres inteligentes, ele quer te pegar. Ou, pior, ele tem medo do patrulhamento das feias e das chatas, que no Brasil, graças às deusas, não crescem em número porque as mulheres brasileiras são como dizem os franceses "femmes aux hommes" (mulheres para os homens).
Por que é necessário ter coragem pra dizer que a inteligência feminina não é erotizada pelos homens? Ora bolas, porque atualmente falar para as mulheres que inteligência vale mais do que a beleza é um "dever de todo cidadão".
Uma mulher poderá fazer uma queixa contra você na delegacia da mulher caso você não diga para ela que inteligência numa mulher é fundamental. Não se engane: inteligência nunca é fundamental. Mas, não exagere para o outro lado: as burrinhas enchem o saco depois de duas horas de sexo.
Quanto à primeira questão (os homens têm medo de mulheres inteligentes?), a resposta é simples: sim, sempre; só os mentirosos e medrosos negam este fato. Melhor dizendo, o homem sempre tem medo da mulher, principalmente quando está interessado nela.
Segundo os darwinistas, esta seria uma característica atávica, desde a savana africana. Medo da infidelidade, medo da impotência, medo do ridículo.
Mas há sutilezas nisso tudo. O homem prefere a beleza, mas num relacionamento de longo investimento, outras característica pesam, às vezes, mais do que a beleza pura e simples. Por exemplo, evidências de que ela seja fiel, boa mãe para seus futuros filhos, generosa, doce (coisa rara em mulheres excessivamente competitivas, como é comum em cidades do tipo São Paulo, mas menos comum em outras regiões, como Minas Gerais ou Nordeste onde elas são mais "sorridentes").
Beleza demais pode dar medo quando ela é sua mulher. Garanhões costumam rondar mulheres bonitas demais. Se você só quer "pousar de poderoso" com uma gostosa, tudo bem, mas se quiser viver com ela, aí a coisa pega. Para pilotar um Boeing você tem que ser competente em muita coisa, e nem sempre dá, num cenário violento e volátil como o mundo contemporâneo, onde as mulheres têm mais opção de escolha afetiva e profissional.
Por que, muitas vezes, é tão difícil para as mulheres aceitarem que a inteligência numa mulher não seja essencial? Porque, ao contrário dos homens (esses seres primitivos, insensíveis e promíscuos... risadas...), as mulheres erotizam a inteligência no homem, às vezes, mais do que a beleza pura e simples.
Eu arriscaria dizer que a inteligência quando associada à coragem (virilidade) pode ser um afrodisíaco imbatível para as mulheres numa noite de calor.
Resumo da ópera: a inteligência numa mulher é um risco interno à relação porque o homem pode se sentir "menor" do que ela.
Já a beleza feminina é sempre um risco externo porque o cara sente medo de perdê-la porque sabe como os outros caras pensam.
Já a inteligência num homem nunca é um risco interno à relação porque as mulheres dão nó em qualquer homem. Mas, é sempre um risco externo porque as mulheres sabem como suas parceiras pensam: se, além da inteligência, o cara tiver "atitude" (a soma disso dá em charme), aí, meu bem, se prepare para a cobiça de suas amigas.

ponde.folha@uol.com.br

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Vai dar namoro?

Essa coisa de “bom dia ao demônio” pode ser convidativa… Lembrou-me de uma frase de Martha Medeiros que diz assim: “Tenho juízo, mas não faço tudo certo, todo paraíso precisa de um pouco de inferno!

Bjs a todos!!

 

Vai dar namoro?

15/02/2011
“É namoro ou amizade?”. Sílvio Santos fixou essa pergunta na TV. “Amor sem sexo é amizade”. Em uma frase Rita Lee disse tudo – ou quase tudo.  Amor e amizade se confundem quando somos jovens. Colegas de escola passam de amigos para namorados e vice-versa. Um dia, isso acaba. Ou pensamos que acaba. Com o tempo, começamos a imaginar que sabemos distinguir a amizade do amor. Mas, nisso, nem sempre acertamos quanto a nós mesmos e, para complicar mais ainda, também quanto ao outro de nossas relações. Quando menos se espera, eis que se está amando um amigo! E aí vem a frase na frente do espelho: “como que eu entrei nisso, justo eu,  que achava que essa confusão era coisa de pré-adolescente!”
Os filósofos tentam distinguir o amor da amizade não à toa. Há amor na amizade. Esse amor vai dar margem ao amor de casais? Ou seja, esse amor da amizade vai dar espaço para o amor do namoro, do envolvimento sexual, do casamento? Isso pode ocorrer. Por isso mesmo, lá no seu início, a filosofia, com Sócrates, se preocupou com isso. Sócrates gastou seu verbo tentando dizer o que é o amor da philia e o que é o amor de Eros. A partir daí, a filosofia, nos seus melhores momentos, jamais deixou de investigar e falar a respeito do amor de amizade e suas trombadas com o amor de amantes. Um ponto culminante dessa trajetória: Montaigne.
Num dos textos mais belos de toda a história da filosofia – “Sobre três relações” – Montaigne fala da amizade com homens, do convívio com “mulheres belas e honestas” e da companhia dos livros. Em um determinado momento desse texto ele aponta para o que pode estar no fio da navalha entre a amizade e a paixão. Ele diz, sobre a parte com as mulheres, que se trata “de uma relação em que devemos ficar um pouco com pé atrás”. E isso principalmente para aqueles que, como confessa, são como ele, os “em que o corpo pode muito”. Montaigne não deixa dúvidas: aqueles cujo corpo é competente poderão passar da amizade ao desejo e se enredar na paixão. Ele pede cuidado, mas, ao mesmo tempo, chama de covardes os que se acautelam demais. Fugir disso seria como que perder a honra por temer a exposição aos perigos (1).
Montaigne não fala em sedução. Não fala em artimanhas. Ele não as desconhece. Foi jovem e sabe bem das mulheres. Mas, na hora de escrever, ele chama a atenção para o corpo. Não qualquer corpo. O corpo que “pode”. Há corpos que não estão proibidos, mas não podem. Ou seja, corpos que não se impõem. O limite entre a amizade e o amor, quando se trata do convívio entre um homem e uma mulher (“bonita e honesta”) (*), é facilmente rompido por aqueles “em que o corpo pode muito” – insisto.
Quem diria diferente? Podemos ter uma dificuldade imensa entre saber o que é a amizade. Igual dificuldade em saber o que é o amor. Mas, quando transitamos de um para o outro, os indícios são fortes. Queremos nos enganar às vezes. Mas, enfim, a quem enganaríamos? É o corpo que se põe, não é? Primeiro, vem o cheiro do outro. O prazer do cheiro, quando se está presente, a saudade do cheiro, quando da ausência. Depois, a beleza dos gestos, do sorriso e do olhar. O esvoaçar dos cabelos. O timbre da voz. O modo de andar, de sentar e de se levantar. O toque. O tônus muscular e o tônus das partes que não têm músculo algum. Tudo isso invade o campo que, até pouco tempo, era o da amizade. Se isso é para os dois lados, muito que bem. Caso ocorra de um lado só, eis aí o infortúnio!
Ao ficarmos mais velhos, essa transição entre terrenos do amor e da amizade é fácil de ser mapeada. Então, acreditamos que jamais será possível não saber o que é que Montaigne disse com o seu “ficar com pé atrás”. Mas o corpo é matreiro. Ele finge não poder e, do nada, ele volta a poder. E eis que uma amizade cruza a fronteira. Por isso, a mulher casada inteligente é amiga do marido e não admite nenhuma outra amizade feminina que implique no convívio. Isso Montaigne não disse, sou eu que digo: o corpo que podia, pode voltar a poder. E confiar no corpo é como dar bom dia ao demônio. Nem por polidez se dá bom dia a demônio.
© 2011 Paulo Ghiraldelli Jr. Filósofo, escritor e professor da UFRRJ
Os Ensaios. São Paulo: Cia das Letras-Penguin, 2010, p. 373
(*) É claro que, aqui, Montaigne lida com o que ele viveu. Trata-se de fazer uma filosofia não conceitual, que não está preocupada em, por exemplo, falar de amor e amizade dentro de diferentes relações de gênero etc. (Peço desculpas ao leitor mais sofisticado por ter colocado essa nota. Mas, hoje em dia …)

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

No osso

LUIZ FELIPE PONDÉ
  Desde semana passada,  Pondé tem comentado sobre esse filme, e hoje a noite nos alertou... assistam antes que eu conte o final... 
  Os que acompanham esse blog conhecem um pouco a visão dele, mas conversando pessoalmente dá pra entender melhor esse seu jeito meio "amargo" (niilista como se define) de ser...
   Hoje assisti o filme "O Discurso do Rei" com o ator inglês que adoro Colin Firth (me apaixonei por ele na adolescência quando o conheci como Mister Darcy de Orgulho e Preconceito) o homem dos sonhos de toda mulher... voltando ao filme, uma interpretação extraodinária, estarei torcendo por ele no Oscar. Estão em minha lista para assistir "Bravura Indômita" dos Irmãos Coen e lógico "Inverno na Alma" que posteriormente comentarei com vocês.... 
Beijos a todos!



No osso


A vida é um drama sem solução. Atualmente, são os homens que esperam pelo príncipe encantando



ESTOU FELIZ. Dirão meus detratores que minto porque um niilista nunca está feliz. Mentira. A felicidade de um niilista apenas custa mais caro porque não é "made in China". Está mais para BMW do que para Chery.
Estou feliz porque vi um filme que me deu esperança no cinema dos próximos anos: "Inverno da Alma" , de Debra Granik.
Com os 80 anos do grande Clint Eastwood, temo por sua herança. Encontrei em Debra Granik uma esperança. Quem achar estranho que uma mulher seja a herdeira de um cineasta que fala de virilidade engana-se.
Num cenário como o atual no qual os homens, quase todos, falam fino e pedem permissão às mulheres para dizer o que pensam, só podíamos mesmo ter esperança que as cineastas mulheres se tornassem as possíveis herdeiras daquilo que os homens estão a perder: a coragem de dizer que a vida é um drama sem solução. Hoje, são os homens que esperam o príncipe encantando.
"Inverno da Alma" é filme de gente grande, coisa rara na medida em que a democracia de mercado avança (e tem que avançar mesmo, senão todo mundo morre de fome, como na África) e faz do cinema coisa para retardados.
A luta no capitalismo avançado e na democracia de massa é pela defesa da inteligência, que sofre o risco constante de atolar num pântano de bobagens para fazer a classe média se sentir segura.
Nada contra filmes divertidos, de ação, de terror e coisas assim. Mas quando o cinema resolve salvar o mundo, mudar o mundo, mudar as pessoas, meu Deus, que tédio.
Parafraseando o grande Oscar Wilde (1854-1900), que disse algo como "toda poesia sincera é ruim", todo filme no qual o diretor quer salvar o mundo é ruim. Mas como a audiência costuma ter o mesmo nível mental do diretor, quase ninguém percebe que está diante de coisa do jardim da infância.
Em 2004, Debra Granik já fizera "Down to the Bone", filme sobre uma mulher que luta contra as drogas em meio à criação de seus filhos. Agora ela volta "ao osso" para falar de uma menina de 17 anos que luta para achar seu pai, que meteu sua família numa fria das sérias.
Sua mãe, imprestável, é uma deprimida apática. Em meio à pobreza, a garota cria seus dois irmãos mais novos e cuida de tudo mais. Sozinha diante da vida, sem frescuras, sem "mapa moral", sem a ladainha política de vítima social.
O filme se passa num desses Estados atrasados do sul americano, pobre e rural. Aquela América que o amador Obama não entende. Esperemos que passe logo a onda Obama de governar para a torcida, a fim de ganhar aplausos dos estudantes e das feministas.
Uma das coisas que pode tornar o filme "difícil" é exatamente o fato de ele não oferecer o "mapa moral" que todo mundo gosta de receber quando vai ao cinema ou quando pensa sobre a vida e os costumes.
O filme não oferece "mapa moral" porque todos os personagens estão atolados na vida, que é essencialmente um fenômeno amoral, sem os tais "valores" de que todo mentiroso gosta de falar.
Apesar de que ficou na moda todo mundo desfilar "princípios éticos" por aí, a semelhança da hipocrisia cristã do passado, no silêncio de nossas almas nós sabemos que fazemos tudo que for necessário para sobreviver. E quem é exceção, não faz marketing do bem, apenas morre cedo.
Sim, uma dose de "ilusão moral" constitui a vida em sociedade. A própria noção de amor familiar como fato óbvio é uma dessas ilusões (as famílias, às vezes, são máquinas de moer gente e nem toda mãe ama seus filhos, às vezes os odeia e às vezes, com razão).
A metáfora do "osso" aqui é essencial. Em inglês, chegar ao osso é chegar ao fundo das coisas, na sua estrutura mais elementar. É chegar ali onde a ilusão não habita.
A cena na qual a protagonista com a ajuda das mulheres que a tinham espancado, "resolve o enigma" é uma ode à genuína piedade.
Não consigo pensar em maior canto à sofrida dignidade humana (esta mesma que os marketeiros do bem maculam com seu papo-furado) do que a heroína Ree, ao final, tranquilizando seus irmãos pequenos, dizendo que não conseguiria viver "sem o peso deles nas costas". Eis um filme para se ver de joelhos.

ponde.folha@uol.com.br

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Quibes, queijos e vinhos

LUIZ FELIPE PONDÉ
Quibes, queijos e vinhos

Quem está na rua no Egito quer emprego; se fala em "liberdade", é porque aprendeu com o Ocidente


OS ÁRABES foram às ruas. Os paquistaneses (muçulmanos, mas não árabes) vivem nas ruas pedindo a cabeça de algum inimigo do Islã. Pensar que estamos diante da "aurora" de um novo mundo árabe democrático é uma piada.
Imagino como alguns "sacerdotes da religião do povo" (populismo para intelectuais de esquerda?) devem ficar emocionados, lembrando (fantasiando?) os grandes dias do Maio de 68 na França.
Se lermos as colunas de Nelson Rodrigues (editora Agir) da época, encontraremos questões como: afinal, o que querem esses estudantes parisienses se não cortaram nenhuma cabeça? Que revolução é essa que acabou em croissant?
De uma hora para outra, a moçada francesa voltou para casa para tomar vinho e comer "un petit fromage". Centenas de teses pelo mundo tentam até hoje explicar a razão de a "revolução do desejo" de Maio de 68 ter acabado de repente, sem nenhuma razão.
Diferentemente dos jovens americanos, que tinham um motivo concreto para protestar (a horrível Guerra do Vietnã), os meninos franceses estavam cheios de tédio, naquela vidinha chata de gente rica, e resolveram brincar de "comuna de Paris".
No fundo, queriam "o direito" de transar com as colegas nos dormitórios da universidade, alguns meninos queriam "o direito" de transar com outros meninos (sob a bênção filosófica do mestre Foucault, que, aliás, no começo da Revolução Islâmica do Irã, tinha frisson por ela), e alguns, como sempre, não queriam mesmo é ir para a aula e virar gente grande.
Mas os "sacerdotes do povo" fizeram seu trabalho e transformaram aquela festa em grande fenômeno histórico.
A verdade é que não se sabe no que vai dar essa "revolução do quibe" no mundo árabe. Pessoalmente, espero que consigam viver melhor e se livrem dos "partidos de deus".
Mas o que é viver melhor? Para mim, que não sou relativista e acho a democracia liberal ocidental o melhor sistema político conhecido e gente que amarra toalha na cabeça para gritar "morte aos infiéis!" gente atrasada, viver melhor é poder ganhar dinheiro e pagar suas contas, consumir coisas que queremos consumir, transar com quem você quiser, não ter que aturar maridos espancadores, não ser obrigado a sustentar mulheres de que você não gosta mais, não ser obrigado a rezar se você não quiser, poder rezar se você quiser para o deus que você quiser, não ter que achar seu governante "o salvador do povo". Enfim, coisas básicas, não?
Mas o fundamentalismo islâmico (que não é a mesma coisa que islamismo) não pensa assim.
Se, por um lado, não se pode afirmar que o Egito vá virar o Irã (que alguns ainda acham ótimo porque "enfrenta o imperialismo americano"... risadas...), por outro, negar o risco do fundamentalismo islâmico na região em questão é uma piada. Pura má fé teórica.
Risco aqui não significa apenas tomar o poder, significa minar a sociedade, enterrando as pessoas nesse "pântano de deus" onde fundamentalistas crescem como praga na lama.
Essas pessoas que estão nas ruas querem emprego. Se eles falam em "liberdade", fazem-no porque aprenderam com o Ocidente capitalista malvado. Não estão movidos por ideologias de Maio de 68. Espera aí... qual era mesmo a ideologia? Reclamar da TV, do cinema, de ter que arrumar o quarto, de ter que fazer prova na faculdade?
Que tal o Líbano, que virou refém do Hizbollah (o partido de deus), esse grupo muito pacifista e democrático? Ou a irmandade islâmica do Egito, que está "gozando" com tudo isso? E os democráticos do Hamas? Que tal mandar um desses populistas de esquerda passar uns dias com eles para discutir "liberdades individuais"? E se o voto direto por lá eleger outro Hamas?
Muitas análises são feitas a partir do que em filosofia se chama "wishful thinking" (pensamento contaminado por "desejos escondidos"). Muita gente projeta sobre esses fenômenos seus pequenos sonhos de grandeza teórica.
Esses países não têm a divisão moderna entre religião e Estado. Negociar com eles é negociar com o Islã, não nos enganemos. O necessário é falar com o Islã e seus líderes, a fim de "isolar" a praga do fundamentalismo.