''Eu tenho meus motivos pra ser exatamente do jeito que eu sou, acredite.''

sábado, 17 de julho de 2010

As 16 Datas que Mudaram o Mundo

      Terminei de ler um livro interessantíssimo de Pierre Miquel que mostra as datas que realmente marcaram o mundo, claro que na visão do autor na minha opinião existiram várias outras datas importantes que também "abalaram" o nosso pequeno planeta, como por exemplo o 11 de setembro, a chegada do homem a lua...etc...



1) O Nascimento de Cristo
      O antes o bloco imperial augusto e marmóreo do Império Romano que domina inteiramente o mundo conhecido e para que os cidadãos de Roma exploram no melhor de seus interesses os povos vassalos e os numerosos escravos.
     O depois é o nascimento do indivíduo como valor universal, livre, igual a seus irmãos, adorador de um Deus único, de um Deus de amor gerado por uma mulher, é o primeiro Deus que aparece como uma criança, nem Zeus, nem Atena foram bebês. Nasce inocente e nu, Maria o amamenta, é vulnerável como um homem pode sofrer e morrer.
     Jesus é um homem entre os homens, que dá a seus irmãos a louca esperança de igualdade. Nada de escravos. Um homem é feito para a liberdade.
     É perseguido, torturado e morto pelo imperador romano, pois sentia-se ameaçado.
     Quem fala de conquistas, quando é preciso amar? A mensagem de Cristo é de amor. Nem ódio nem guerra. Amai-vos uns aos outros. O homem não é o lobo do homem, mas um irmão.

2- A queda do Império Romano
     O antes de 476 é a ficção da unidade do mundo romano, que se mantém vivo até então por meios artificiais e se torna cristão a partir do reino de Teodósio. O império do Ocidente só continua no lugar pela forte resistência do império do Oriente, mais sólido.
     O depois de 476, muito tempo após as grandes invasões, constitui a ruptura da unidade do mundo mediterrâneo com o desaparecimento definitivo do Império Romano do Ocidente. É também o aumento da intolerância religiosa em consequência do crescimento das primeiras heresias nos reinos bárbaros, que constitui para impedir a reconstituição de uma unidade.
  • Visigodos: godos do oeste (wisigoths)
  • Ostrogodos: godos do leste (ostrogoths) 
3- A Hégira
     O antes da Hégira, o ano I da era muçulmana, o ano 622 da era cristã, representa a divisão do mundo conhecido entre os reinos bárbaros do oesta da Europa, fragmentados, divididos e ainda submetidos às invasões, e o império bizantino cristão que sobrevive a leste do Mediterrâneo.
     O depois a Hégira é a conquista muçulmana, a guerra senta, mantida pela fé de uma nova religião que deixa subsistir no Oriente um império bizantino enfraquecido e que estende seus avanços no ocidente até a Espanha e ao sul da Gália, cortando em dois o Mediterrâneo durante quatro séculos.
     Beduínos, homens do deserto, viveram perdidos no deserto da Ásia e na obscuridade, a partir do séc. VII exerceram importante papel na sucessão do Império Romano; comercializavam camelos, peles, carne, lãs, até o séc. VII.
     Nesse tempo os romanos não tinham interesse por essa área do deserto em que eles viviam.
     Hégira é a fuga de Maomé de Meca para Medina.  Fazia parte de um grupo de homens que em MECA cuidava da CAABA, um cubo que continha um meteorito (pedra negra) segundo a religião a pedra era branca e ficou negra pois as pessoas passavam seus pecados a ela, eram politeístas. Maomé “fugiu” formou um exercito e voltou a Meca para derrotar os árabes.
Hagar  foi escrava de Abraão que deu origem aos hebreus, casado com Saara, era idosa quando ele foi eleito fundador do povo de Israel, povo judeu, e não tinha condições de procriar, Jeová autorizou Abraão ter relações com Hagar para que ela lhe desse um herdeiro para continuar seu trabalho o filho chamou-se Ismael, mas Jeová mudou de planos e a esposa Saara engravidou e teve  Isaac.
Ismael comandou a civilização Árabe e Isaac aos israelitas, judeus(Semitas)
A pedra foi usada por Hagar para seu filho dormir, fugiu da palestina para Arábia.
Maomé ficou órfão e foi trabalhar como condutor de caravanas. Casou-se com sua patroa Cadija e após o casamento não mais trabalhou  ganhando assim tempo para pensar e criar a religião Islâmica, aos 40 anos ele recebe a visita do arcanjo Gabriel que  lhe revela sua missão como profeta. "Alá é um Deus eterno e único, ao lado do qual não há outro deus, não tem esposa nem filho, não desce sobre a terra nem envia mensageiro do céu, dirige-se ao mundo exclusivamente pela boca de seu profeta".
     Nessa época Maomé conheceu outras civilizações como por exemplo os persas. Ele queria uma religião monoteísta então baseou-se na bíblia.
     Maomé era analfabeto então foi seu sogro Abril Becha que escreveu o Alcorão após sua morte. O islamismo tem como ponto central  a CONDUTA MORAL, não se admite álcool, adultério é altamente condenável. O homem pode ter 4 esposas desde que tenha condições financeiras para tal.

    Omar conquistou o Egito em 702, Norte da África até a coluna de Hércules, estreito entre África e Península Ibérica.
    Gib El Taric  710- atravessou a coluna de Hércules na batalha de Cádiz e derrotou os cristãos ibéricos.
Somente o Reino das Astúrias ficou livre da dominação.
Não tinha caráter doutrinário e sim somente dominou economicamente.
     Carlos Martelo (franco-cristianismo) enfrentou os islamitas na Batalha de Poitier, derrotou os islamitas em 732.
     1453 conquista de Constantinopla.
     Expansão Muçulmana- Domínio Econômico  não com visões religiosas.

4- A coroação de Carlos Magno
     O antes de 800 é na Europa a anarquia de reinos impotentes diante das novas invasões bárbaras, da ameaça árabe sempre presente, de um papado ameaçado pelos bárbaros dentro de seu território.
     O após 800 é a Europa civilizada pelo cristianismo, expandida em direção ao norte e a leste, livre da influência do islã ao sul. Sob o abrigo das marcas de Carlos Magno, ela pode se considerar e se dizer reunificada: a ideia de um império renasce no Ocidente, graças à coroação de Carlos, o Grande, pela única autoridade espiritual que sobreviveu ao antigo império romano. Essa reconstituição da Europa do Noroeste é o prenúncio da imagem de uma Europa unida.

5) A tomada de Constantinopla pelos turcos
     O antes de 1453 é a sobrevivência de um Estado cristão incrustado no Oriente. O Império de Bizâncio é uma espécie de exceção cristã em um mundo muçulmano.
     O depois de 1453 é a ameaça permanente do avanço muçulmano no Mediterrãneo e na Europa danubiana. É a instalação do Islã turco, senhor de um imenso império, que se estende do Oriente Próximo até a Europa.
     O mediterrâneo se fecha. A rota das riquezas do Oriente é vetada para o Ocidente cristão, é necessário procurar em outro lugar, em direção ao oeste, as vias de desenvolvimento para uma Europa nascente.

6) O descobrimento da América
     O antes de 1492 é o infortúnio do mundo mediterrâneo dividido entre o Islã e duas Cristandades antagônicas, irreconciliáveis, a do Oriente e a do Ocidente. É também a miséria e a guerra entre os turcos otomanos e as poderosas nações de religião católica ou ortodoxa.
     O depois de 1492 é a entrada para a história do novo continente americano, é o abandono, por parte do grande comércio, do Mediterrâneo entregue às suas lutas intestinas, é a exploração progressiva das fabulosas riquezas do outro lado do Atlântico, o que desloca em direção ao noroeste da Europa os centros do poder.

7) Martinho Lutero
     Antes de 1517, a Igreja católica ainda é universal na Europa ocidental, onde o papado de Roma não é seriamente contestado, mesmo se criticado em razão de vários abusos e de sua incapacidade em corrigi-los. Mas ele soube domar as heresias e impor-se aos soberanos dos Estados.
     Depois de 1517, pela iniciativa do monge alemão Martinho Lutero, a reforma protestante contesta a supremacia espiritual de Roma, divide os Estados europeus que adotam a nova religião e que se opõe dessa forma aos Estados católicos. A reforma iniciada por Martinho Lutero anuncia um longo período de guerras de religião que causarão a morte de vinte milhões de pessoas na Europa.

8) A Revolução Francesa
     Antes de 20 de junho de 1789 a França é governada por uma monarquia de direito divino, um Estado que extrai sua legitimidade unicamente da sucessão dos reis, baseada no costume, e de uma organização social fundada no princípio do privilégio, que rege toda a sociedade. Ela é dividida em três Ordens: a nobreza. o clero e o Terceiro Estado. Cada uma dispões de um lugar estabelecido em instituições representativas, sem poder legislativo, como os Estados Gerais convocados pelo rei ou os Estados provinciais, quando as províncias possuem um.
     Depois de 20 de junho, os deputados eleitos pelo povo, reunidos em assembléia constituinte, declaram que a lei é superior ao rei e afirmam que a lei é comum a todos. É uma revolução. Falta somente abolir o privilégio.

9) A Primeira Guerra Mundial
     O antes de Sarajevo, em junho de 1914: a Europa dos reis prossegue tranquilamente a conquista e a exploração do mundo, não sem batalhas entre as nações e não sem resistências populares e coloniais.
     O depois de Sarajevo é o nascimento de um novo mundo: a Europa perdeu o primeiro round, causando e sofrendo a primeira grande carnificina da História. Dois Estados que deram dois milhões de homens para a coalizão aliada destacam-se Rússia revolucionada e os Estados Unidos vencedor, e impõem em Versalhes os princípios de um direito internacional ao qual todos os povos devem aderir: Wilson contra Lênin.

10) A Declaração de Balfour
     Publicada em 2 de novembro de 1917, em plena guerra, a declaração do ministro britânico promete ao povo judeu o apoio do Reino Unido quanto ao "estabelecimento, na Palestina, de um lar nacional". Ele empregará "todos os esforços para facilitar a realização desse objetivo, estando bem claro que nada será feito que possa ferir os direitos civis e religiosos das comunidades não judias existentes na Palestina".
     Antes dessa declaração, os judeus não dispõem de nenhum estabelecimento oficial no mundo que ofereça a seu povo uma segurança.
     Depois dessa declaração, torna-se possível obter um estabelecimento oficial e fortalecê-lo até que se transforme em uma nação independente e soberana.

11) O Holocausto
     O antes do Holocausto, o massacre de judeus e ciganos, de 1941 a 1945, nos campos de extermínio, é a invasão da Europa pelos nazistas, é o estabelecimento da ordem negra diante da ordem vermelha, o que implica a perseguição dos opositores e particularmente dos judeus, vítimas da política racista de Hitler, mas ainda não a morte cínica e cientificamente comprovada.
     O depois do Holocausto, o maior crime da história cometido deliberadamente contra a humanidade, é a inclinação dos povos do mundo inteiro na direção da busca, contra todas as agressões de uma proteção sem concessões, dos direitos elementares do homem e principalmente do direito de viver.

12 - Hiroxima

     A explosão da primeira bomba atômica sobre a ciade de Hiroxima, em 6 de agosto de 1945, abre um novo período na história da humanidade.
     Antes de Hiroxima, as guerras podem ser tecnológicas, terroristas, atentatórias contra os direitos humanos, mas elas não possuem meios para garantir a destruição instantânea e total de uma população.
     Depois de Hiroxima, está provado que essa destruição é possível em uma escala cada vez mais vasta. O mundo entra na era do superarmamento atômico e na era do equilíbrio pelo terror entre as duas grandes potências que dispõem da arma: os Estados Unidos e a URSS.

13) A independência da Índia e do Paquistão
      Antes de 1947, o sistema colonial persiste no mundo. As metrópoles enfraquecidas pela guerra impõem o retorno à ordem em suas colônias.
     Depois da independência da Índia, conquistada em 1947, um poderoso movimento de descolonização se ergue no Terceiro Mundo, e ele conduz progressivamente à independência de todos os países colonizados, inclusive as Filipinas e a África do Sul.
     A comunidade das potências aumenta na ONU, com a eclosão das novas nações em todos os continentes. Um novo mundo nasceu, e ele encontra seu lugar no "Terceiro Mundo".

14) O Tratado de Roma
     A partir de 25 de março de 1957, os tratados de Roma criaram a CEE, Comunidade Econômica Européia.
     Antes de 1957, a Europa, que é constituída em nações antagonistas, está entregue às revoluções, às guerras de independência, aos imperialismos, às angustiantes rivalidades econômicas. Sua unificação é um sonho de intelectual, uma ideia que aprece impossível de colocar em marcha.
     Depois de 1957, a Europa unida conhece um crescimento rápido, ignora meio século de guerras, começa na concórdia e na prosperidade a construção política de suas instituições, para se posicionar no mundo como um grande conjunto democrático.                  


  
 

sexta-feira, 9 de julho de 2010

O Grande Inquisitor

A lenda do Grande Inquisitor

     


O neofacismo, ao contrário do nazifascismo, não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer.
     A maioria dos cidadãos, por natureza, nunca conseguem descobrir por si mesmos o que é certo ou errado, e seu dever cívico consiste em prestar obediência: a tarefa dos governantes da República consiste em inculcar nesses cidadãos as crenças "corretas", isto é, crenças que promovem a estabilidade do Estado, pois o que importa não é tornar os homens sábios, mas apenas obedientes - a grosso modo, essa é a ideia básica da República de Platão.
     Em O Grande Inquisitor, o porta-voz de uma espécie de utopismo autoritário, herdeiro ideológico direto do utopismo platônico, é um cardeal católico do século XVI, chefe supremo da Inquisição espanhola. Seu principal argumento é simples: o homem é uma criatura fraca e deplorável, incapaz de alcançar a paz ou a felicidade, a não ser submetendo-se ao governo de alguns poucos seres humanos superiores, no caso o clero, capazes de lhe determinar o seu destino social.
     Se, por um lado, Dostoievski pretendia, ao escrever, no fim do século XIX, a lenda do Grande Inquisitor, fazer uma crítica à Igreja católica, que para ele não passva de um ateísmo disfarçado e motivado apenas por uma incessante vontade de poder, por outro lado, tratava-se de um alerta e de uma antecipação dos regimes totalitários que, em nome da felicidade humana, constituíram o principal conflito ideológico do século XX.
     Nesse sentido, O Grande Inquisitor, aparentemente uma inocente paródia religiosa, é na verdade um provocador discurso político, uma confrontação alegórica entre duas ideologias opostas.
     Acima de tudo está em debate a questão central da liberdade humana, e essa pequena obra-prima de Dostoievski se transformaria no protótipo de todos os futuros Big Brothers da literatura e da história, antecipando e profetizando os verdadeiros formigueiros humanos em que se transformariam as sociedades contemporâneas, com seus cidadãos infantilizados e "ovinos" e seus governantes paternalistas, que sob o pretexto da felicidade humana, almejam, na verdade, apenas uma coisa: o poder.

Rubens Rusche.

     Na época mais terrível da Inquisição, um homem (Jesus) é preso pelo Santo Ofício por ter sido visto fazendo milagres. O Grande Inquisitor vem interrogá-lo, mas acaba fazendo uma surpreendente revelação. 
     O início de seu monólogo é tão rico que vemos as pessoas sendo conduzidas às fogueiras no auge da grande Inquisição.

“Estamos em Sevilha, no século XVI”, diz o narrador. O confronto – que na realidade não há, pois “Cristo” a tudo ouve, sem emitir uma única palavra – toma conta de toda a peça. Não há cenário, apenas dois bancos dispostos em diagonal. Um homem da inquisição pretende queimar na fogueira aquele para o qual “trabalha”. Uma pequena heresia de Dostoievski, em um texto que mexe a todo momento com os limites da fé.

     Intolerância religiosa. Queimamos aqueles que são de nós diferentes. Arrasamos com o pensamento contrário ao nosso. Enfim, não se acabou a queima na fogueira, pois as palavras também agridem, também condenam, também queimam.

     O Grande Inquisidor é um espetáculo textual, que conta com uma aula de atuação de Celso Frateschi, ator que se agiganta no palco. Não há nada que possa quebrar a concentração da platéia: nem elementos de cena, nem trilha sonora. Apenas o texto e o ator, de corpo inteiro.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

A viúva e o cowboy

     Pondé como sempre com sua sinceridade ácida sem perder sua (frustrada) função de crítico de cinema...

LUIZ FELIPE PONDÉ
A viúva e o cowboy

Uma palavra que, com o passar do tempo, começou a me encher o saco foi a palavra "cidadania"



NÃO GOSTO de arte como ferramenta de cidadania. Uma palavra que, com o tempo, passou a me encher o saco foi "cidadania".
"Faixa cidadã" (faixa para motocicletas), "teologia cidadã". Desta, então, eu não tenho a mínima ideia do que seja.
Talvez (arrisco uma hipótese, toda minha, mas inspirada no que poderia ser a defesa da "cidadania bíblica dos gays"), seja uma releitura da Bíblia a partir da "Queer Theology" ("teologia bicha")? Ou seja, quem sabe Jesus e seus discípulos formavam uma comunidade gay e a traição de Judas teria sido uma crise de ciúmes porque Jesus preferia "meninos" como João. Humm...
Tem mais: "Pedagogia cidadã" (seria: "Não reprove ninguém, respeite os direitos dos alunos não saberem nada da matéria e permitam que eles construam as avaliações coletivamente"), ou "geografia cidadã" (no lugar de ensinar a localização dos países na aula de geografia, obrigue os alunos a saberem de cor a gloriosa história do sindicato dos boias-frias), ou "sexo cidadão" (deve ser sexo sem invadir a intimidade do/a outro/a!!).
Nem o coitado do Rousseau (e seus tarados jacobinos), que amava a humanidade, mas abandonou os filhos e a esposa, imaginou que levassem tão longe seus pobres delírios em suas caminhadas solitárias.
E o pior é a história do "voto cidadão" e "a festa da democracia para a qual o título é seu convite". Sou obrigado a votar e ainda chamam isso de "direito cidadão". Quer saber? Deixem-me em paz e não me obriguem a votar. Acho que o voto deveria ser facultativo no Brasil, como é na maioria dos países civilizados do planeta.
Mas eu dizia que não gosto desse negócio de arte como ferramenta de cidadania. Por quê? Porque faz da arte coisa de retardado.
Antes de tudo, nada contra o uso de arte nas escolas. Mas, é claro, a maioria de nós (incluindo a mim mesmo que não sei desenhar nem uma casinha) não é capaz de qualquer arte. Este papo de que "todo mundo tem uma competência que lhe define" é conversa mole de pedagogo de autoajuda.
Melhor logo dizer que o universo conspira a favor de todos os alunos e que basta se concentrar que você vira Da Vinci ou Shakespeare. A história do mundo, seja ela artística, política, econômica, social ou científica, sempre foi feita por alguns poucos seres humanos. A maioria nunca fez nada além de tocar sua vidinha medíocre e continua assim, afora a "publicidade cidadã".
Num sábado de preguiça, eu e minha bela esposa assistimos na TV a um filme de cowboy, desses antigos nos quais homem é homem e mulher é mulher (que saudade...), com James Stewart, Rachel Welch, Dean Martin e George Kennedy chamado "O Preço de um Covarde".
Nada deste papo furado de "filme cidadão", onde as mulheres lutam com espadas para provar que são iguais aos homens (ou melhores do que os homens), ou heróis se emocionam diante de uma lagartixa em agonia ou lutam em favor de um país africano onde todo mundo é santo, menos os brancos interesseiros. Enfim, essa arte com compromisso social é sempre lixo.
O filme apresenta a vida como ela é: sem coerência, sem roteiro moral prévio, submetida ao acaso desarticulador de toda esperança vã. Rachel Welch é uma recém-viúva milionária. É pega como refém pelo bando de Dean Martin, condenado à forca, mas que é salvo pelo irmão James Stewart.
Este é um homem generoso que busca salvar seu irmão não só da forca, mas do desencanto com a vida que o levou ao crime. George Kennedy, xerife da cidade e apaixonado por Rachel Welch, é um homem honesto e virtuoso que irá corajosamente à caça do bando.
Dean Martin encontra na inesperada paixão entre ele e Rachel Welch o motor suficiente pra fazê-lo escutar o conselho de seu irmão: "Deixe a vida criminosa e vá fazer uma família".
O xerife, quando consegue prender o bando, pede a mão da bela mulher, mas ela recusa, ainda que ele seja honesto e devoto a ela. Ela prefere o criminoso. Este, em claro processo de redenção, acaba morto (junto com seu irmão), destruindo toda a esperança.
Qual é a moral dessa história? Nenhuma. Ou, arrisquemos uma: a vida é cega

segunda-feira, 28 de junho de 2010

A medicina de Tchekhov


LUIZ FELIPE PONDÉ
A medicina de Tchekhov

O escritor russo nascido há 150 anos tinha um sentido aguçado para a miséria concreta da vida humana




 


HÁ 150 ANOS o escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904) nascia. Médico, Tchekhov tinha um sentido aguçado para a miséria concreta da vida humana.
Partilho com ele de um grande ceticismo com relação à crença cega no progresso, tão comum entre os tolinhos de hoje em dia.
Qual a visão de mundo de Tchekhov? Qual é a marca profética (comumente referida na crítica especializada) dos autores russos do século XIX com relação à modernização? No caso de Tchekhov, contra o delírio de autossuficiência moderna, essa marca está na sua visão de que a humanidade vive contra um cenário infinito que ultrapassa cada um de nós e a cada "era histórica", retirando-nos a possibilidade de avaliar o verdadeiro sentido de nossos atos.
Apenas aqueles que viverão 500 anos depois de nós poderão, talvez, ver algum obscuro sentido em nossas vidas.
Ao contrário dos "ocidentalizantes" (termo comum na Rússia do século XIX para descrever os que abraçavam o avanço moderno sem dúvidas), que se viam como donos do próprio destino, Tchekhov logo percebeu que a modernização seria apenas mais uma experiência, como tudo que é humano, de fracasso com relação à posse do destino.
Contra o ridículo orgulho moderno, ele vê que a modernidade seria uma série de encontros e desencontros com as eternas sombras do humano. Quais seriam as sombras "modernas"? Os ganhos sociais (a superação do "chicote", como dizia Tchekhov, um descendente de servos) e técnicos (os ganhos da medicina no combate, por exemplo, à cólera, que tanto ocupou sua vida de médico de província) que cobrariam um alto preço (perda dos laços comunitários, mergulho na desumanização instrumental em busca de uma vida melhor, "bregarização da vida"), representado de forma cirúrgica em sua obra.
Esta paciência para com o obscuro sentido de nossas vidas é atípica em uma época como a nossa, marcada pela impaciência com o vazio da vida. Fingimos que sabemos o sentido de nossas vidas, vendo-o como sendo o "avanço" ou o "progresso" técnico, ético e social. Para cada avanço, um afeto se esvazia sob o dilaceramento das relações (burocratizadas) que se dissolvem no ar. Os afetos e não as ideias nos humanizam, e afetos não são passíveis de uma geometria do útil.



 
É exatamente da inutilidade dos afetos que fala Tchekhov em peças como "Tio Vânia" ou "Três Irmãs", nas quais as pessoas são tragadas pelos avassaladores detalhes da vida numa marcha cega em direção ao desperdício da sensibilidade humana. Na peça "A Gaivota", uma infeliz gaivota abatida torna-se metáfora de todo o drama: assim como é abatida uma gaivota (pelo diletante desejo humano da caça), somos todos abatidos ao longo da vida, por diletantismo do destino.
Entretanto, que os tolinhos de plantão não pensem que um grande anatomista da alma humana como Tchekhov pensaria bobagens como "se não matarmos gaivotas o mundo será melhor".
É no confronto com as contradições internas da sua obra que podemos perceber que Tchekhov não era um "tolinho progressista" que acreditava numa humanidade higienizada de suas misérias morais.
No conto "O Homem Extraordinário", um homem insuportavelmente honesto, reto e justo (o "insuportável" fica por conta da fala de sua esposa na agonia do parto) destrói a possibilidade da vida cotidiana, em nome de uma vida absolutamente ética: sem luxos, sem desperdício, sem abusos.
Este homem extraordinário dificilmente abateria gaivotas por diletantismo, mas, no lugar do diletantismo da caça, ele asfixiaria a respiração humana sob a caricatura morta de uma vida corretíssima.
No "Jardim das Cerejeiras", uma família da pequena aristocracia rural russa empobrecida, dona de uma propriedade com um jardim de cerejeiras, perde a posse das terras para um descendente de servos, agora livre, burguês e crente no futuro. No lugar deste velho e inútil jardim será construído um loteamento de férias para a "classe média" vir com seu direito brega à felicidade e seu amor ao "futuro".
Pois é ele, o habitante brega desses loteamentos, o herdeiro da Terra e dele será o reino dos céus.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Quem gosta das putas?

LUIZ FELIPE PONDÉ
Quem gosta das putas?

Todo mundo que teme a nova esquerda é chato, castrado, não tem originalidade e é medroso


"A HIPOCRISIA é a homenagem que o vício presta à virtude", dizia o moralista francês La Rochefoucauld. "Moralista", em filosofia, quer dizer anatomista da alma e não alguém que cospe regras em nossa cara.
Hoje a hipocrisia é moeda corrente de grande parte da chamada crítica social. Neste caso, o vício não se vê como vício (o vício aqui é a má-fé em si), mas como consciência social, termo que descreve uma das maiores falácias chiques de nossa época. Quer ver?
Peguemos o caso do filme baseado em "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água", de Jorge Amado, e o debate ao redor da felicidade como "vida safada" ou realização livre do desejo que critica e expõe a hipocrisia pequeno-burguesa.
O personagem era um homem com vida medíocre e "respeitável". É comum criticar a chamada pequena burguesia por sua hipocrisia miserável: emprego medíocre, poupança medíocre, amor medíocre, cotidiano medíocre, em que todos são lobos desdentados, devorando uns aos outros num ritual de opressão mútua. Quincas tem uma vida sem graça e uma mulher típica da pequena burguesia (infeliz, sem sexo, uma megera).
De repente esse homem "se revolta" e mergulha naquilo que muitos intelectuais de então (numa mistura de marxismo de folhetim e Sade popular) veem como crítica social: sua recusa da hipocrisia pequeno-burguesa se materializará num cotidiano de cachaça, mulheres, prostitutas, jogo, enfim, vida mundana.
Suspeito que, se a crítica social, conhecida como uma crítica fincada no tripé "gênero (feminismo e movimento gay) classe e raça", tivesse surgido há 2.500 anos, não teríamos Aristóteles, santo Agostinho, Shakespeare, Dostoiévski ou Kafka (para citar apenas alguns gigantes que teriam preconceitos de gênero, classe e raça).
Provavelmente, seriam todos monótonos, sem originalidade, castrados, chatos e medrosos, como todo mundo que teme essa turba da crítica social da nova esquerda, uma das piores farsas que já se arrastou pela Terra.
Por que estou dizendo isso? Porque, apesar de dizer por aí que personagens assim "são o máximo" porque caem na "noite de pobre", Quincas não se salvaria da crítica social hipócrita que domina parte do cenário "culto" contemporâneo.
Afora sua correta farra de pobre, ele é machista (faz uso das mulheres como objeto comprando as "coitadinhas" das putas -acredito que a maioria das putas escolhe essa vida porque gosta da coisa mesmo), "opressor" de sua "esposa vítima" para quem nega a "justa" satisfação de suas necessidades de mulher (ela seria uma vítima do desinteresse de um marido incapaz de amá-la tal como se "exige" dos casais) e alienado, sem questionar a "sociedade injusta que o gerou". Hoje em dia, o ideal estético da crítica social seria um Quincas castrado.
Outro erro é assumir a hipocrisia como traço "exclusivo" da pequena burguesia. A pequena burguesia tem um modo específico de hipocrisia. Mas maior má-fé é supor que criticar a hipocrisia da pequena burguesia seja superar a hipocrisia porque esta seria um fenômeno "de classe". Toda a "dialética da luta de classes" se resume na dinâmica que reúne a inveja (dos pobres) e o egoísmo (dos ricos) num rito ancestral de sangue.
A hipocrisia é um elemento intrínseco da dinâmica civilizada (como reconhecem os moralistas franceses, sem por isso fazer o elogio dela). Negar isso (o caráter universal da hipocrisia) é fundar um novo tipo de má-fé, mais falsa ainda, porque se traveste de pureza d'alma.
A necessidade da hipocrisia como elemento da vida civilizada se dá porque os seres humanos não se suportam plenamente. E não há como ser diferente. A "verdade" pode ser mortal na vida social. Alguns sobrevivem graças aos seus vícios, outros perecem graças às suas virtudes. A força desse personagem não está em seu caráter crítico da pequena burguesia, mas sim em seus vícios (mulheres, bebida, jogos), sem perdão. Fazer dele um herói da "virtude política" seria como lhe dar um enterro "respeitável", pequeno-burguês, em vez de levá-lo, mesmo que morto, ao bordel, para "ver" suas deliciosas putas.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Por que Joãozinho não aprende a ler


‘Por que Joãozinho não aprende a ler’
Editorial 15/06/2010
*João Batista Araujo e Oliveira

     O título deste artigo reproduz o de um livro publicado em 1953 e que provocou intenso debate sobre métodos de alfabetização. A polêmica durou até o final do século, quando o assunto foi  definitivamente resolvido. No resto do mundo, não no Brasil. Uma análise das 19 cartilhas de alfabetização aprovadas pelo Ministério da Educação (MEC) em 2009, e que estão em  uso na maioria das escolas públicas, revela a razão. Neste artigo, comentamos apenas alguns aspectos dessa análise.
     Comecemos pela bibliografia citada pelos autores. Bibliografia reflete as orientações usadas. Dentre as 265 referências bibliográficas citadas nas 19 cartilhas, apenas cinco se referem a estudos especificamente voltados para os aspectos centrais da alfabetização, isto é, o funcionamento do código alfabético. Nas cinco, dois autores são os mais citados. Trata-se dos mesmos que o MEC vem mencionando desde que os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) entronizaram as ideias ultrapassadas e equivocadas que continuam desorientando os professores em todo o País. Cabe notar que, nessas 265 citações, não há referência alguma a nenhum dos artigos mais citados nos índices de publicações científicas internacionais sobre alfabetização ou nos documentos oficiais dos demais países que utilizam o código alfabético.
     Em matéria de pedagogia, não é só o MEC que está na contra-mão dos progressos da ciência: alguns governos estaduais e municipais, que continuam produzindo suas próprias cartilhas, o fazem com base nos mesmos pressupostos equivocados.
     Outro aspecto da análise se refere ao descumprimento sistemático dos termos de referência do edital do Programa Nacional do Livro Didático. Por insistência pessoal do ministro Fernando Haddad, que enfrentou ruidosamente suas resistências internas e externas, o edital introduziu dois requisitos: a apresentação adequada dos fonemas e grafemas – base de qualquer processo de alfabetização – e atividades próprias para desenvolver fluência de leitura. Esses dois requisitos não foram observados de forma minimamente adequada em nenhuma das cartilhas aprovadas. O prejuízo pedagógico é óbvio. Cabe ao Tribunal de Contas da União (TCU) decidir se isso constitui delito de improbidade administrativa por parte de quem deu e quem aceitou os pareceres sobre essas cartilhas.
     Cartilhas elaboradas com base em pressupostos equivocados não ajudam as crianças a aprender a ler e escrever. Mas qual é, de fato, o objetivo das cartilhas aprovadas? De acordo com seus autores, o importante é promover o letramento, os usos sociais da língua, a intertextualidade, as múltiplas linguagens, a produção textual e outros pomposos desiderados. O domínio do código alfabético que se dane! Ou que se danem os alunos, como atestam os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) e as pesquisas sobre a capacidade de leitura dos brasileiros.
    Na prática, o que acontece com as cartilhas é o mesmo que ocorre com os livros didáticos, especialmente os de Língua Portuguesa – um samba de crioulo doido. Nas primeiras páginas das cartilhas, por exemplo, o aluno é convidado a escolher quais palavras do texto (que ele não sabe ler) indicam frutas. Ou é convidado a “escrever do seu jeito” o nome das ilustrações. Ou a combinar sílabas, cuja leitura não lhe foi ensinada, para formar palavras. Ou a identificar, “usando pistas contextuais”, qual de três frases completa um texto. Ou seja, tudo se passa como se a criança fosse um novo Champolion desafiado a decifrar a Pedra de Roseta. Ou a “formular hipóteses” sobre o valor fonológico dos grafemas. Se as pessoas fossem capazes de formular hipóteses pela mera exposição aos textos, como explicar a existência de analfabetos adultos numa sociedade urbana e letrada?
     Nos países desenvolvidos, a questão dos métodos de alfabetização deixou de ser alvo de debates há pelo menos duas décadas, graças aos avanços das neurociências e às contundentes evidências a respeito da superioridade dos métodos fônicos. Os últimos redutos de resistência nos Estados Unidos acabam de ruir com a edição das novas orientações curriculares, nas últimas semanas.
     Eis o que diz um dos mais importantes neurocientistas da atualidade, Stanislas Dehaene, na sua obra Os Neurônios da Leitura: “A conversão grafema-fonema é uma invenção única na história da escrita, que transforma radicalmente o cérebro da criança e sua maneira de ouvir os sons da língua. Ela não se manifesta espontaneamente, portanto, é preciso ensinar.” Quanto à forma de ensinar, a ciência experimental demonstra que para alfabetizar bem pe necessário apresentar os fonemas e grafemas de forma seqüencial, intencional e sistemática. Essa é a função das cartilhas. O tema foi inclusive objeto de relatório de recomendações recentes da Academia Brasileira de Ciências, mas continua ignorado pelo establishment educacional.
     Ignorar os avanços da neurociência e as evidências experimentais acumuladas sobre métodos de alfabetização não significa apenas defender uma posição ideológica a respeito da alfabetização: significa rejeitar a ideia de que a ciência pode contribuir para melhorar o ensino. Ou seja, pedagogia, como bruxaria, dispensa a ciência. Valem apenas as crenças e o poder de pressão das corporações. E é isso que fazem as universidades, no Brasil, e as autoridades responsáveis pela educação na maioria de nossas redes de ensino.
     Não sabemos o que o TCU e o MEC farão para correr atrás do prejuízo. Mas sabemos quais são os resultados dessa política: no 5º. ano do ensino fundamental, metade das crianças não consegue entender o que lê. E agora sabemos por que Joãozinho não aprende a ler, no Brasil.
*Presidente do Instituto Alfa e Beto.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

O direito de buscar a felicidade



     (...) A felicidade para você, pode ser uma vida casta; para outro, pode ser um casamento monogâmico; para outro ainda, pode ser uma orgia promíscua.
     Para você, buscar a felicidade consiste em exercer uma rigorosa disciplina do corpo; para outros, é comilança e ociosidade. Alguns procuram o agito da vida urbana, e outros, o silêncio do deserto. Há os que querem simplicidade e os que preferem o luxo. Buscar a felicidade, para alguns, significa servir a grandes ideais ou a um deus; para outros, permitir-se os prazeres mais efêmeros(...)*
     Eudaimonía: felicidade.
Ela não consiste, segundo Demócrito, nos bens externos.
O homem justo é feliz. E a melhor vida é a mais feliz (Platão).
A felicidade é o supremo bem prático para os homens. Consiste na contemplação intelectual(Aristoteles).
No estoicismo a felicidade resulta da vida harmoniosa, contudo não é um fim (telos), mas um estado concomitante (Seneca)


Gosto da iniciativa da Declaração de Independência dos EUA porque coloca a busca da felicidade como um direito do cidadão.

Também procuro minha versão da felicidade, mas desde que não impeça a procura da felicidade dos outros. Para Nietzsche Eis A Fórmula Da felicidade: Um Sim, Um Não, Uma Linha Reta, Uma Meta...
     Já para Sartre: A felicidade não está em fazer o que a gente quer e sim em querer o que a gente faz.
O conceito de Felicidade em Espinosa: O caminho para se alcançar uma vida feliz implica necessariamente no aperfeiçoamento das emoções. Há muitas paixões que diminuem o nosso conatus. E outras, por outro lado, o aumentam. A libertação das paixões escravizadoras se encontra na substituição dessas paixões, assegurando assim a independência e a serenidade ante as adversidades do meio.

     O que me faria feliz (receber os amigos em casa até altas horas) com certeza não bate com a ideia de felicidade de meu vizinho que gosta de paz e sossego. Por isso não posso exigir que para eu ser feliz, todos procurem a mesma felicidade que eu busco.
     Imagine que para ser feliz todos tem que ser felizes do jeito que você gosta, você estará desprezando a busca da felicidade do outro, assim como o bandido, o estuprador desprezam ......
     A minha felicidade também existe no âmbito da contravenção (como dirigir com os vidros abertos a 160 km..)
     O governo oferece isenção fiscal as igrejas, às quais muitos procuram a felicidade. Mas não deveriam estender esse benefício às escolas de dança de salão ou os clubes sadomasoquistas que também são significativos na busca da felicidade de vários cidadãos?
     Deveria o governo favorecer somente a ideia de felicidade compartilhada pela maioria? Ou deve apoiar a felicidade que teria uma mais “nobre” inspiração moral?
     Antes de responder considere: Os governos totalitários (laicos ou religiosos) sempre “sabem” qual é a felicidade “certa” para seus sujeitos. Juram que eles querem o bem dos cidadãos e garantem a felicidade como um direito social. Claro é a nossa felicidade para todos. É isso que você quer?
 Pensem nisso.... Um ótimo final de semana a todos!! 
Beijos... Tânia.

*Contardo Calligaris
    

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sem esperança

LUIZ FELIPE PONDÉ
Sem esperança

Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo e toda a bobagem de luta de classes



RESPONDO ASSIM, de bate-pronto, a um aluno: "Não, não tenho nenhum ideal". Silêncio. Talvez um pouco de mal-estar. Todos ali esperavam uma resposta diferente porque todo mundo legal tem um ideal.
Eu não tenho. É assim? Confesso, não sou legal, nem quero ser. Duvido de quem é legal e que tem um ideal. Esperança? Tampouco. E suspeito de quem queira me dar uma.
De novo respondo assim, de bate-pronto, a outro aluno: "Não, não quero mudar o mundo, nem mudar o homem, muito menos a mulher, a mulher, então, está perfeita como é, se mudar, atrapalha, gosto dela assim, carente, instável, infernal, de batom vermelho e de saia justa".
Mentira, esta última parte eu acrescentei agora, mas devia ter dito isso também. Outro silêncio. Talvez, de novo, um pouco de mal-estar. Espero que falhem todas as tentativas de mudar o homem.
Não saio para jantar com gente que quer mudar o mundo e que tem ideais. Prefiro as que perdem a hora no dia que decidiram salvar o mundo ou as que trocam seus ideais por um carro novo. Ou as que choram todo dia à noite na cama.
Tenho amigos que padecem desse vício de ter ideais e quererem salvar o mundo, mas você sabe como são essas coisas, amigo é amigo, e a gente deve aceitar como ele (ou ela) é, ou não é amizade.
Perguntam-me, estupefatos: "Mas você é professor, filósofo, escritor, intelectual, colunista da Folha, como pode não ter ideal algum ou não querer mudar o mundo?".
Penso um minuto e respondo: "Acordo de manhã e fico feliz porque sou isso tudo, gosto do que faço, espero poder fazer o que faço até o dia da minha morte".
Perguntam-me, de novo, mais estupefatos: "Mas você está envolvido no debate público! Pra quê, se você não quer mudar o mundo?".
Sou obrigado a pensar de novo, outro minuto (afinal, são perguntas difíceis), e respondo: "Participo do debate público pra atrapalhar a vida de quem quer mudar o mundo ou de quem tem ideais".
Os intelectuais e os professores pegaram uma mania de ser pregadores, e isso é uma lástima. Inclusive porque são pessoas que leem pouco e que são muito vaidosas, e da vaidade nunca sai coisa que preste (com exceção da mulher, para quem a vaidade é como uma segunda pele, que lhe cai bem).
O que você faria se algum professor pregasse o evangelho ao seu filho na faculdade? Provavelmente você lançaria mão de argumentos do tipo que os intelectuais lançam contra o ensino religioso: "O Estado é laico e blá-blá-blá... porque a liberdade de pensamento blá-blá-blá...". Se for para proibir Jesus, por que não proibir qualquer pregação?
Pergunto-me por que não proíbem professores de pregar o marxismo em sala de aula e toda aquela bobagem de luta de classes e sociedade sem lógica do capital? Isso não passa de uma crendice, assim como velhas senhoras creem em olho gordo.
Nas faculdades (e me refiro a grandes faculdades, não a bibocas que existem aos montes por aí), torturam-se alunos todos os dias com pregações vazias como essas, que apenas atrapalham a formação deles, fazendo-os crer que, de fato, "haverá outro mundo quando o McDonald"s fechar e o mundo inteiro ficar igual a Cuba".
Esses "pastores da fé socialista" aproveitam a invenção dessa bobagem de que jovem tem que mudar o mundo para pregarem suas taras. Normalmente, a vontade de mudar o mundo no jovem é causada apenas pela raiva que ele tem de ter que arrumar o quarto.
E suspeito que, assim como fanáticos religiosos leem só um livro, esses pregadores também só leem um livro e o deles começa assim: "No princípio era Marx, e Marx se fez carne e habitou entre nós...".
Reconhece-se uma pregação evangélica quando se ouve frases como: "Aleluia, irmão!". Reconhece-se uma pregação marxista quando se ouve frases como: "É necessário destruir o mundo do capital e criar uma sociedade mais justa onde o verdadeiro homem surgirá"."
Pergunto, confesso, com sono: "E quem vai criar essa sociedade mais justa?". Provavelmente o pregador em questão pensa que ele próprio e os seus amigos devem criar essa nova sociedade.
Mentirosos, deveriam ser tratados como pastores que vendem Jesus e aceitam cartão Visa.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Heloisa

LUIZ FELIPE PONDÉ
Heloisa

Um dos males da época brega em que vivemos hoje é achar que todo mundo seja capaz de amar



MUITAS LEITORAS me perguntam se acredito no amor romântico. Sim, e vou dizer como. Adianto uma diferença: uma coisa é o amor no sentido do que dá "liga" no convívio de longa duração e outra coisa é o amor romântico (pathos), e os dois não são "parentes".
O amor no sentido de "liga" é cristão: doação, esforço cotidiano, construção de vínculos. O amor romântico é da ordem da tragédia.
Não farei uso de nenhuma pretensa sociologia do amor ou história do beijo. Essa afetação científica não me interessa. A minha descrença nas ciências humanas está além da possibilidade de cura. Parafraseando Pascal (séc. XVII), quando se refere a Descartes (séc. XVII): acho as ciências humanas incertas e inúteis.
Tampouco sofro da afetação das neurociências. Aqui, o amor seria apenas uma sopa com mais ou menos serotonina. Pouco me importa qual lado do cérebro acende quando amo. Ambas nos levariam a conclusões do tipo: o amor romântico seria uma invenção a serviço da ideologia burguesa e patriarcal ou alguma miserável conjunção de neurônios, como num tipo de demência senil.
Falo como medieval extemporâneo que sou. Acho a literatura medieval melhor para falar do amor romântico (como achava o mexicano Otavio Paz). Em matéria de ser humano, confio mais nos medievais do que nos homens modernos.
Segundo André Capelão (séc. XII) em seu "Tratado do Amor Cortês", o amor é uma doença que acomete o pensamento de uma pessoa e a torna obcecada por outra pessoa, criando um vício incontrolável que busca penetrar em todos os mistérios da pessoa amada: suas formas, seu corpo, seus hábitos.
Trata-se de um anseio desmedido, uma visão perturbada que invade o coração dos infelizes. Tornam-se ineficazes e dispersos. Esses infelizes deliram em abraçar, conversar, beijar e deitar-se com o ser amado, mas jamais conseguem fazê-lo plenamente (por várias razões), e essa impossibilidade é essencial na dinâmica do desejo perturbado. Corpo e alma estremecem anunciando a febre da distância.
O amor romântico é uma doença. Nada tem a ver com felicidade. Por isso sua tendência a destruir o cotidiano, estremecendo-o.
Ou o cotidiano o submeterá ao serviço das instituições sociais como família, casamento e herança patrimonial, matando-o.
Por isso, os medievais diziam que o amor não sobrevive ao cotidiano. O cotidiano respira banalidade e aspira à segurança (irmã gêmea da monotonia, mas que a teme ferozmente), e a paixão se move em sobressaltos e abismos. Uma pessoa afetada pela paixão não pensa bem.
Nem todo mundo sofrerá da "maldição de amor", como diziam os medievais. Muita gente morre sem saber o que é essa doença.
Um dos males da época brega em que vivemos é achar que todo mundo seja capaz de amar como se este fora um direito do cidadão. Com a idade e o estrago que o cotidiano faz sobre nossas vidas e suas demandas de acomodação dos afetos (e a instrumentalização a serviço do sucesso material), a tendência é nos tornarmos imunes ao "vírus".
O século XII conheceu a triste história do filósofo Abelardo e sua amada Heloisa. As semelhanças dessa história com os contos de amor cortês como Tristão e Isolda ou Lancelot e Guinevere é grande. Nesses contos, há sempre um impeditivo ético à paixão.
Um dos amantes é sempre casado com alguém virtuoso ou um porá em risco a vida do outro devido ao ódio ou a inveja de um terceiro (por isso, se forem virtuosos, devem abrir mão do amor). O desejo se despedaça contra o fogo da virtude, mas não morre, apenas arde em agonia.
Daí a grande sacada dos medievais: quando desejo e virtude se contrapõe, a "maldição de amor" assalta a alma. Sentir-se pecador (e por isso não merecedor da beleza do amor) destrói a alegria, atiça o desejo e piora a doença. A melhor rota é fugir do amor, porque uma vez ele instalado, a regra é a dor.
Abelardo morreu castrado pelo tio da Heloisa. Ela, triste, foi trancada num convento. Na idade média, a Igreja recebeu muitas mulheres desesperadas, vítimas dessa doença, muitas vezes, fatal. Como diz o livro Cântico dos Cânticos na Bíblia, texto inspirador da literatura cortês: "Não despertem o amor de seu sono..., pois ele é um inferno".

domingo, 6 de junho de 2010

Um Homem Sério, A vida Íntima de Pippa Lee.


Hoje reservei o domingo para assistir a alguns filmes que estavam reservados na estante, “ Um Homem sério” e “ Vida Íntima de Pippa Lee”. 


O primeiro dos irmãos Cohen confesso que me decepcionou, apesar das críticas favoráveis, o filme deveria se chamar “Um homem idiota”, como pode alguém passar por tantos desagravos na vida e seguir como se não fosse com ele, (o maior de todos é ter que pagar o funeral do amante da esposa), sem falar no final, sem sentido algum. 


O filme “A Vida Intima de Pippa Lee” fala de superação, de culpa, de dependência, não necessariamente nessa ordem. Pippa desde pequena vive sob a proteção de uma mãe dependente de tranqüilizantes, depois vai morar com uma tia (que descobre ser lésbica), e vive por um tempo com alguns hippies na época do “paz e amor”, até que conhece seu marido em uma festa de artistas e intelectuais.


A vida dá a Pippa uma chance de se reapaixonar, quando conhece o filho de uma vizinha, na mesma época em que descobre que seu marido mantém um caso com sua amiga. Pippa percebe que anulou sua vida após o casamento, mas se sente livre após descobrir a traição.


É interessante acompanhar Pippa nessa trajetória de autoconhecimento, de superação e até mesmo de uma nova oportunidade de vida.
Dica: Não percam tempo com Um Homem Sério”, mas dêem uma chance para “A vida Intina de Pipa Lee”, e boa diversão.
Uma ótima semana a todos!!